O incômodo silêncio da oposição

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O silêncio da oposição incomoda. Desde 1945 – incluindo o período do regime militar – nunca tivemos uma oposição tão minúscula e inoperante. Vivemos numa grande Coreia do Norte com louvações cotidianas à dirigente máxima do país e em clima de unanimidade ditatorial. A oposição desapareceu do mapa. E o seu principal partido, o PSDB, resolveu inventar uma nova forma de fazer política: a oposição invisível.

A fragilidade da ação oposicionista não pode ser atribuída à excelência da gestão governamental. Muito pelo contrário. O país encerrou o ano com a inflação em alta, a queda do crescimento econômico, o aprofundamento do perfil neocolonial das nossas exportações e com todas as obras do PAC atrasadas. E pior: o governo ficou marcado por graves acusações de corrupção que envolveram mais de meia dúzia de ministros. Falando em ministros, estes formaram uma das piores equipes da história do Brasil. A quase totalidade se destacou, infelizmente, pela incompetência e desconhecimento das suas atribuições ministeriais.

Mesmo assim, a oposição se manteve omissa. No Congresso Nacional, excetuando meia dúzia de vozes, o que se viu foi o absoluto silêncio. Deu até a impressão que as denúncias de corrupção incomodaram os próceres da oposição, que estavam mais preocupados em defender seus interesses paroquiais. Um bom (e triste) exemplo é o do presidente (sim, presidente) do PSDB, o deputado Sérgio Guerra. O principal representante do maior partido da oposição foi ao Palácio do Planalto. Numa democracia de verdade, lá seria recebido e ouvido como líder oposicionista. Mas no Brasil tudo é muito diferente. Demonstrando a pobreza ideológica que vivemos, Guerra lá compareceu como um simples parlamentar, de chapéu na mão, querendo a liberação de emendas que favoreciam suas bases eleitorais.

Em 2011 ficou a impressão que os 44 milhões de votos recebidos pelo candidato oposicionista incomodam (e muito) a direção do PSDB. Afinal, estes eleitores manifestaram seu desacordo com o projeto petista de poder, apesar de todo o rolo compressor oficial. Mas foram logrados. O partido é um caso de exotismo: tem receio do debate político. Agora proclama aos quatro ventos que a oposição que realiza é silenciosa, nos bastidores, no estilo mineiro. Nada mais falso. Basta recordar o período 1945-1964 e a ação dos mineiros Adauto Lúcio Cardoso ou Afonso Arinos, exemplos de combativos parlamentares oposicionistas.

E pior: o partido está isolado, fruto da paralisia e da recusa de realizar uma ação oposicionista. Desta forma foi se afastando dos seus aliados tradicionais. É uma estratégia suicida e que acaba fortalecendo ainda mais a base governamental, que domina amplamente o Congresso Nacional e que deve vencer, neste ano, folgadamente as eleições nas principais cidades do país.

O mais grave é que o abandono do debate leva à despolitização da política. Hoje vivemos – e a oposição é a principal responsável – o pior momento da história republicana. O governo faz o que quer. Administra – e muito mal – o país sem ter qualquer projeto a não ser a perpetuação no poder. Com as reformas realizadas na última década do século XX foram criadas as condições para o crescimento dos últimos dez anos. Mas este processo está se esgotando e os sinais são visíveis. Não temos política industrial, agrícola, científica. Nada.

Este panorama é agravado pelo sufrágio universal sem política. Temos eleições regulares a cada dois anos. Foi uma conquista. Porém, a despolitização do processo eleitoral acentuado a cada pleito é inegável. Para a maior parte dos eleitores, a eleição está virando um compromisso enfadonho. Enfadonho porque vai perdendo sentido. Para que eleição, se todos são iguais? O eleitor tem toda razão. Pois quem tem de se diferenciar são os opositores.

Ser oposição tem um custo. O parlamentar oposicionista tem de convencer o seu eleitor, por exemplo, que os recursos orçamentários não são do governo, independente de qual seja. Orçamento votado é para ser cumprido, e não servir de instrumento do Executivo para coagir o Legislativo. Quando o presidente do principal partido de oposição vai ao Palácio do Planalto pedir humildemente a liberação de um recurso orçamentário, está legitimando este processo perverso e antidemocrático – inexistente nas grandes democracias. Deveria fazer justamente o inverso: exigir, denunciar e, se necessário, mobilizar a população da sua região que seria beneficiada por este recurso. Mas aí é que mora o problema: teria de fazer política, no sentido clássico.

Já do lado do governo, qualquer ação administrativa está estreitamente vinculada à manutenção no poder. Não há qualquer preocupação com a eficiência de um projeto. A conta é sempre eleitoral, se vai dar algum dividendo político. A transposição das águas do Rio São Francisco é um exemplo. Apesar de desaconselhado pelos estudiosos, o governo fez de tudo para iniciar a obra justamente em um ano eleitoral (2010). Gastou mais de um bilhão. Um ano depois, a obra está abandonada. Ruim? Não para o petismo. A candidata oficial ganhou em todos os nove estados da região e na área por onde a obra estava sendo realizada chegou a receber, no segundo turno, 95% dos votos, coisa que nem Benito Mussolini conseguiu nos seus plebiscitos na Itália fascista.

Se continuar com esta estratégia, a oposição caminha para a extinção. O mais curioso é que tem milhões de eleitores que discordam do projeto petista. Mais uma vez o Brasil desafia a teoria política.

Fonte: O Globo, 24/01/2012

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16 comments

  1. Luciano Squarizzi

    Prezado Marco Antonio, mais do que o silêncio, o que incomoda e irrita mesmo é a ABSOLUTA incompetência da oposição (aliás,que oposição??) se houvesse o atual e anterior governo já teria caído de podre.
    O Brasil precisa de um “novo PT” de oposição, porque a democracia está sob risco. Um país sem oposição, não é um país democrático (alguém já disse isso, não?)
    abs
    LSquarizzi

  2. Daniel Tisi

    A oposição se cala porque se não o fizer, não se reelege nas próximas eleições para o parlamento.

    O cálculo é simples: o governo determina para onde vai e quem vai receber os recursos indicados pelos parlamentares. É um ato discricionário do Poder Executivo.

    Não à toa mesmo qualquer simples votação no Plenário é realizada também dessa forma: ameaça.

    Não existe democracia no Brasil. E mesmo se existisse, nem sei se seria bom. De qualquer forma, não há o debate ideológico. Todos somos…

  3. Jonatas C D

    e, por acaso, há oposição no Brasil hoje?

    pensando bem, uma reforma no conceito de oposição seria bem recebida, ou vamos continuar com o referencial da ‘esquerda’ das últimas décadas.

    Além do que, será que esse povo ainda não aprendeu a fazer oposição?

  4. Carlos Lopes

    Caro Villa.
    Vejo o rumo político do Brasil hoje com muita preocupação. Não só as oposições dos partidos, mas como as dos cidadãos também se encontram muito silenciosas. Salvo raras exceções nas redess sociais, blogs etc.
    Vejo um entorpecimento, uma conformidade com o partido que governa o Brasil, aumentando cada vez mais seus tentáculos sobre partidos, ongs, entidades de classes. Tornando-se quase absolutos, que parece que chegará o tempo em que viveremos a ditadura dos partidos unidos.

  5. Jocézio BRITO de Souza

    Hoje no país, o partido que mais se aproxima de uma oposição, é o DEM. Pena que muitos eleitos por esta sigla, covardemente migraram para o PSD. Que os eleitores brasileiros oposicionistas, saibam reconhecer isto nas próximas eleições, votando em candidatos deste partido (DEM), marcando sua posição contrária ao que está acontecendo.

  6. Lincoln Meireles

    É sempre bom e instrutivo ouvir o professor Villa. Mas há uma pergunta que o professor, creio, ainda não se fez–ao menos publicamente. Ele diz que milhões de eleitores são contra o projeto petista. Mas já se questionou se o PSDB é contra o projeto petista? Ora, a oposição não pode ser totalmente ingênua, inepta. Não há como aceitar isso. Deve haver muito de voluntarismo, de cálculo, de interesses escusos, ideológicos e pessoais em todo esse silêncio. Abs

  7. Elena

    Concordo com o Lincoln. Não temos oposição. Não se pode chamar o serra de oposição quando se sabe que era office boy das organizações terroristas nas quais a dilma trafegava. Existe uma apatia moral, uma aceitação bovina de uma situação que está cada dia mais cubista (de cuba mesmo) – e o aparelhamento de estado cada dia mais opressor, vide as secretarias de mulheres,(?) diversidades, educação (ahn???) etc. Socorro!

  8. fabio nogueira

    Os partidos de oposição,(leia-se:DEM e PSDB),perderam o rumo da história com seus velhos caciques com pensamentos retoricos e jovens sem nada para apresentar de novo.

    Não existe oposição no Brasil. Culpa do atual governo? Não.Não,houve avanço e renovação de ídeias,ficam presos em temas batidos,fingem ser democratas sem esquecer que o passado o de repressão de muitos anos os condenas e com passar dos anos mostrou-se incompetentes.Não fizeram nada para melhora a vida do povo.

  9. Markut

    Independente da excelência, ou não da atual gestão, o mais grave é, simplesmente, não termos oposição.
    O falso esquema supostamente democrático entre nós impede a existência da indispensavel alternância de poder.
    A situação de hoje passaria a ser a oposição amanhã e vice versa.
    Caso contrário, é isso que está aí, mais do que continuidade, continuismo.

  10. ney ferreira

    “Tudo posso naquele que me fortalece:o eleitor otário!(Deus Lula)

  11. João

    É interessante notar que o povo hoje não gosta muito de demonstrações de indignação ou oposição pois para ele a situação nunca esteve tão boa como está hoje.

    Acreditem: para quem comeu o pão que a ditadura militar amassou estar hoje comendo as migalhas petistas é como sair do inferno e entrar direto para o paraíso.

    Eu, por exemplo, esqueci por muitos anos aqueles anos duros de minha infância mas, parece-me que meu estômago nunca se esqueceu.

    Por isso, graças à memória de meu estômago e não à memória de minha mente racional que facilmente se deixa levar pela síndrome de Estocolmo, eu sei que hoje o Brasil está um milhão de vezes melhor do que esteve naquela época, ao menos para mim.

    Talvez quem esteja padecendo no paraíso sejam aqueles que vivem de idéias e suas vidas ficam monótonas sem o concurso das mesmas e dos debates que elas fomentam.

    Para mim essa falta de idéias a nível nacional significa liberdade e não falta de oposição política.

  12. Luis Henrique

    As pessoas mais esclarecidas (e bem intencionadas) sabem da importância do processo de estabilização econômica, que foi o legado do governo FHC. Sem estabilidade econômica não é possível planejar. Os mais pobres eram os mais duramente afetados pela inflação (pois não tinham acesso a aplicações financeiras).Muitos dos índices de melhoria de condições de vida propalados pelos governos petistas vieram de lá… Quando o próprio PSDB parece esquecer este passado, como que assumindo de certa forma a demonização criminosa de que o ex-presidente tem sido alvo e se acovarda perante a propaganda petista, sempre fundada em distorções de fatos e argumentos intelectualmente desonestos (sutilezas que população humilde não compreende), é de se preocupar. Precisamos que as pessoas defendam aquilo em que acreditam. Não se pode capitular perante os fabricantes de verdades, ou acabaremos por nos transformar em outra república bolivariana…

  13. antoniocarlosteixeira

    pois é sr professor concordo com quase tudo mas o sr deixou de dizer que TODOS eu disse TODOS se arrumaram e calaram.o povo que antes brigava por seus lideres e partido,viu as vanguardas e os partidos se misturarem como se fosse uma coisa SÓ,…ATÈ aquelas discussoes nas camaras e no senado nao se ve mais.basta prestar atençao nas alianças BRASIL a fora(um partido nao vale nada num estado.No outro estado é o parceiro ideal)interessa estar no poder.NOS o povao temos culpa nisso sim,estamos respondendo com desprezo,medo,comodismo,afinal de contas nao esta tao ruim assim.VI aqui na minha cidade nessa eleiçao TODOS,TODOS os puliticos no mesmo palanque falando defendendo apoiando a mesma idea.PORQUE NAO ESTAO NO MESMO PARTIDO???Segundo eles estao a favor da cidade… deveriam estar a favor do povo.Enfim talvez um dia JESUS intervervenha.

  14. numa

    NÃO FORAM OS DITOS CACIFES DO PSDB QUE CONSEGUIRAM 44 MILHÕES DE VOTOS,ALGUNS MILHÕES DESTES VOTOS FORAM DAQUELES NÃO ENGAJADOS POLITICAMENTE QUE DISSERAM NÃO AO PARTIDO DA SITUAÇÃO.É DIFÍCIL ACREDITAR MAIS QUEM SE COMPORTOU COMO OPOSIÇÃO FOI O DEM.ALGUÉM RECORDA AS FALAS DO EX GOVERNADOR MINEIRO EM RELAÇÃO AO PRESIDENTE LULA.NO ESCÂNDALO DO MENSALÃO A OPOSIÇÃO AMARELOU,ALGUÉM ASSISTIU NA TV CÂMARA O DEPUTADOS EDUARDO PAES E FRUET HOJE SÃO ALIADOS DO GOVERNO.A PRAGA DO JEFHERSOM PEGOU.TRANSFORMARAM A CÂMARA FEDERAL EM UMA CÂMARA DE VEREADORES DE QUINTA.OS COSTUMES DOS GROTÕES DO NORDESTE FOI INCORPORADO PARA OUTROS ESTADOS:”FARINHA POUCO MEU PIRÃO PRIMEIRO”.OPOSIÇÃO SUBSERVIENTE,NENHUMA NOVIDADE DIANTE DO COMPORTAMENTO DESTE DITO SENHOR PRESIDENTE DE OPOSIÇÃO SÉRGIO GUERRA.O NORDESTE NÃO EXISTE POR CAUSA DELES,MAS PELOS FABIANOS E OS LUIZES GONZAGA:”SEU DOUTÔ UMA ESMOLA PARA O HOMEM QUE É SÃO OU LHES MATA DE VERGONHA OU VICIA O CIDADÃO,DA TRISTE PARTIDA VIROU TRISTE VERGONHA NORDESTINA

  15. Leônidas Costa Andrade

    Mas, o IMIL não é a oposição?, segundo a Judith Brito a imprensa é a oposição e ela falou isso quando era presidente da ANJ, portanto, falou com conhecimento de causa e autoridade, o IMIL não faz parte do grupo midiático que ela representa?.

  16. Zé Afrânio

    A oposição é necessária, mas não ser oposição simplesmente, tem que ter projetos e idéias diferentes e melhores pra defender e não ser oposição apenas em cima de eventuais erros da situação. É querer ganhar sem trabalhar.