Verissimo deveria se dedicar apenas às comédias do cotidiano, pois escreve muita besteira quando tenta falar de política e economia. Mesmo sabendo disso, ao contrário de muitas pessoas que conheço, me dou ao trabalho de ler o que ele escreve. Tenho aquela sensação de adrenalina pela irritação, com a qual acabo criando um hábito. Sua última coluna, “Céu ou Inferno”, publicada no Estadão e no Globo no dia 23 de novembro, me gerou essa reação em doses intoxicantes. Verissimo faz, na coluna, um julgamento sobre o possível destino da “alma” de Milton Friedman, questionando se seu pensamento, cujo impacto reconhece, teria contribuído para um mundo melhor ou pior. Para dar a resposta, o gaúcho mostra que para ele, a defesa da ideologia é mais importante que a verdade dos fatos. Não inocentemente, chama o comunismo soviético de “capitalismo de estado”, comparado ao “capitalismo de consumo” que teria vencido a Guerra Fria. Ao fazer isso, faz coro com intelectuais que afirmam que o comunismo nunca existiu, fingindo ignorar que ele jamais existirá. E não existirá porque não passa de uma utopia, impossível na prática. Essa mesma troca de nomes também revela a recusa em admitir que a tentativa de chegar ao modelo de sociedade comunista defendido por Verissimo sempre usou e usará meios que levam inexoravelmente ao terror, escravidão, miséria e genocídio. É até por isso que socialistas evitam debater meios e se concentram na defesa dos fins que acreditam monopolizar. O artigo segue afirmando que Thatcher, com a frase “não há alternativa”, inaugurou “a fé fundamentalista da qual Friedman é o Deus, e a Universidade de Chicago é o templo maior, que ainda domina o pensamento econômico do mundo”. Verissimo sabe que o liberalismo não tem qualquer mínima semelhança com religião fundamentalista. O modelo econômico de que ele fala é vitorioso no mundo justamente porque está calcado na lógica econômica, no conhecimento da natureza humana e em vasta experiência no mundo real. Crentes fanáticos são os socialistas, que fogem de um debate focado apenas em argumentos lógicos, apelando para a retórica, falácias, sensacionalismo e emoções. Verissimo, no entanto, como quem projeta na tela sua própria imagem, mente: afirma que a crença nos dogmas liberais independe de verificação e sobrevive a todos os desmentidos. Que verificação? Que desmentidos? Os países mais prósperos do mundo são os que mais se aproximaram do ideal liberal, enquanto os mais miseráveis são justamente os mais próximos do modelo socialista. Verissimo “pensa” ter achado a prova para refutar o liberalismo: “A América Latina, submetida há anos à ortodoxia monetarista do Consenso de Washington sem proveito, é um desmentido continental da infalibilidade de Friedman”. As recomendações do Consenso de Washington, que os socialistas usam como bode expiatório, têm base numa obviedade da vida prática: gastar mais do que se tem gera problemas. Questionar isso é como desafiar a lei da gravidade! Se os socialistas criassem uma lei “heterodoxa” que fizesse uma massa sob seu efeito subir ao invés de cair, Verissimo arriscaria se jogar do alto de um prédio? Mas quando o assunto é a vida dos outros, suas economias, Verissimo prefere ignorar a lógica e pregar a magia. Com alguma honestidade, ninguém pode afirmar que as idéias liberais de Friedman foram adotadas por nosso continente. A única exceção é o Chile que, não por acaso, é o país mais próspero e com maior estabilidade tanto política como econômica da vizinhança. Mas Verissimo jamais irá entrar nos detalhes do assunto. Isso não é interessante para ele. Usar a América Latina como ícone do liberalismo para desqualificá-lo não é uma postura intelectual séria, num debate. O liberalismo defende estado reduzido, contido pelas regras da lei, liberdade individual, liberdade econômica. No Brasil, por exemplo, a carga tributária está em 40% do PIB, o Estado intervém nos mínimos detalhes econômicos, a burocracia é asfixiante, falta império da lei, enfim, não há praticamente nada aqui que se assemelhe ao liberalismo. Tanto que estamos na rabeira do ranking de liberdade econômica tanto do Heritage como do Fraser Institute. Nada disso importa para Verissimo, que diz que “razões para mandar a alma do Friedman para a grelha não faltam”. Para Verissimo, o Estado “desenvolvimentista”, cheio de estatais, é a “única esperança de os países miseráveis saírem da miséria”. É difícil acreditar que ele ignore os casos de reformas liberais, na contramão de seu “pensamento”, adotadas por países como o Chile, Irlanda, Nova Zelândia, Espanha, Islândia, Austrália etc. Ou os próprios casos dos Estados Unidos de Reagan e da Inglaterra de Thatcher, ambos salvos do atraso e da recessão, numa época em que suas economias estavam totalmente estagnadas, pelas medidas defendidas por Friedman. Em contrapartida, seria o caso de perguntar qual país deu certo com essa receita “desenvolvimentista”. Não haverá resposta. E Verissimo diz que é o liberalismo que não suporta a verificação! Por fim, Verissimo conclui que, ao menos, Milton Friedman foi um pensador original, e isso – somente isso e seu prêmio Nobel – faria um contrapeso ao claro viés de mandá-lo para o inferno. Entre o Céu e o Inferno, portanto, Verissimo ficaria, quem sabe, com o Purgatório. Mas, sem querer, Verissimo fez a melhor escolha, pois tais agressões são na verdade elogios. O céu do Verissimo deve ser algo como Zimbábue, Coréia do Norte ou Cuba. Melhor ir para o que ele considera um inferno mesmo, pois certamente será a imagem de um lugar livre e próspero.

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