O inferno são os outros

 Agora que o Brasil está na moda, por cima da carne seca no mapa-mundi, é um bom momento para revisões profundas. Sim, porque quando a situação é difícil – como foi nossa experiência desde sempre, com poucos períodos de exceção –, mal dá tempo de pensar em como sobreviver, como empurrar a vida com a barriga, matando um leão por dia. Hoje, podemos dar-nos ao luxo de ter algum manejo na direção da economia, e usar reservas monetárias, por exemplo, para viver marolinhas ao invés de tsunamis. Ponto para nós. A vida política já são outros quinhentos, e permanece a urgência da implementação de marcos institucionais, como regras político-eleitorais mais consistentes, de forma a reduzir a corrupção e os casuísmos a índices mais próximos aos das democracias consolidadas.

 

Com o nível macro em reforma, dizem que a autoestima dos brasileiros também melhora. Nosso estrutural “complexo de vira-latas”, no jargão de Nelson Rodrigues, talvez se converta em autoimagem positiva, que admita podermos, sim, ser referências. Mudanças podem ser cristalizadas gradualmente no plano no plano micro, individual, de forma que o resultado seja uma sociedade futura de cara nova. Sabemos, pelos exemplos históricos dos países do primeiro mundo, que os limites do comportamento cidadão também são moldados pela percepção individual de quão sérias são as regras em vigor e também quão elevadas são as chances de punição em caso de transgressão. A percepção é de que os custos de um comportamento socialmente condenável são mais baixos se as chances de punição também forem pequenas.

 

Mas talvez falte, para o amadurecimento de um sentimento mais maduro de cidadania, a percepção de que o comportamento individual afeta o coletivo. Em sociedades de massa, do ponto de vista lógico o peso da participação individual tende a ser percebido como proporcionalmente insignificante. Não será o meu pequeno deslize que vai fazer a diferença no todo. Sei que é errado comprar produtos piratas, por exemplo, mas se eu não resistir à tentação de, como na Lei de Gerson, levar essa vantagem, obviamente não serei eu a causadora da enorme evasão fiscal da pirataria. Ou, em outras palavras, se todo mundo faz, por que eu não posso fazer? Não será minha pequena falha que fará um conjunto ruim, mas as grandes falhas dos outros. Trata-se de um círculo vicioso: se todo mundo faz errado, minha ação correta não teria peso; assim, individualmente, eu não contribuo para romper o círculo.

 

Esse fenômeno fica estampado também em resultados de pesquisas de opinião. A maioria concorda que “o povo brasileiro é malandro”, ou que “o povo é corrupto”; mas, individualmente, poucos se declaram malandros ou corruptos. O problema é sempre com os outros. Segundo pesquisa do Datafolha realizada em agosto de 2009, 94% dos brasileiros consideram errado oferecer propina e vender o voto – índices dos países desenvolvidos. Há vários outros exemplos de dados que mostram que há consciência do que é certo e do que é errado. Não se trata, portanto, de confusão sobre princípios, mas de autoindulgência com as próprias transgressões.

 

Ora, se sempre acharmos que aquela falcatruazinha, só desta vez – ou só mais uma vez –, não vai fazer diferença, então nunca haverá mudança. É preciso mudar a ideia de que a responsabilidade individual é tão reduzida que não afeta o todo. No processo de reversão de nosso “complexo de vira-latas”, seria conveniente mexer também nessa questão da ação individual. Afinal, um conjunto de individualidades faz diferença no coletivo. Para a mudança mais ampla, serão importantes regras que sejam cumpridas e a percepção de que transgressões serão punidas. Mas precisamos, também, parar de achar que o inferno são os outros.

 

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