O insolúvel diálogo entre corpo e alma

Como meu saudoso pai, eu sou um cultor dos “exercícios físicos”. É certo que na academia que frequento diariamente e que não é a das letras, pela qual, diga-se logo e sem ironia, tenho um enorme apreço, não existem livros e ninguém tem disponibilidade para filosofar. E, no entanto, é ali que, em plena atividade aeróbica, reflito sobre o profundo e dramático encontro entre corpo e alma. Penso que o tal workout consolidado pelos americanos, mas obviamente esperando pelo seu arqueólogo social, tem raízes nos conventos, monastérios e cavernas onde monges, ascetas e os que escolheram ou foram chamados a abandonar o mundo comiam bíblicos gafanhotos e repetiam ladainhas ou mantras que implicavam uma crise agônica do corpo para, em seguida, encontrar o mais leve e puro êxtase dos aeroplanos.

Dizem que isso se deve à produção de hormônios, mas a questão é por que alguém decide liberá-los por meio de um método tão trabalhoso e, no limite, banal e desapaixonado, vestido de calção e camiseta? Estaria o céu misturado à Terra? Se está, a entrada se localiza na academia ali da esquina? Embora mais ou menos convencido de que todas as grandes divisões foram superadas e substituídas por filigranas, pelas pequenas indistinções como as que existem entre os arrondissements de Paris, mesmo assim eu sei que há um mundo dos vivos e um mundo dos mortos.

Corpo e alma, real e ideal, transitório e eterno, os outros e eu são — dizem — meros enganos da mentalidade moderna. Mas, apesar de todos os “anti” e “pós”, as pessoas morrem e eu tenho um corpo e uma, já não digo, alma porque não quero parecer tão old fashion, como diria o saudoso Paulo Francis (como, by the way, ele reagiria ao filme “Lula, o filho do Brasil”?), mas tenho uma mente que reflete o que está fora e dentro de mim, mesmo quando o meu corpo está parado.

Quando, por exemplo, sonho e vejo coisas que não gosto ou não sei, ou sou visitado pelos meus mortos.

Ou, acordado, quando eu corro numa esteira pondo esse aparato de carne e ossos para funcionar a todo vapor mas, mesmo concentrado no esforço do colocar o meu corpo em crise, a mente continua a me levar para lugares inusitados e a pensar em muitas outras coisas além do exercício que executo. Mesmo em solenidades e, sobretudo naquelas conferências que não dizem nada, eu fantasio ganhar a MegaSena, comer a moça do lado, matar o conferencista e esses relâmpagos imaginativos dialogam comigo em mil conjecturas.

De qualquer modo, a mente trabalha furiosa, imperiosa e livre. Eu visito o Peru do Frade Junipero e vejo ruir a ponte de São Luis Rey; estou ao lado de Hans Castorp ouvindo as aulas de Nafta e de Setembrini e, com ele, cheio da lama podre das trincheiras da Primeira Grande Guerra; estou cansado de conversar com Vasco Moscoso de Aragão, capitão de longo curso, e de ouvir suas mentiras enquanto, simultaneamente, vejo, excitado, Betinho beijar Capitu.

No mesmo ritmo, eu testemunho a crucificação de Cristo, sou marinheiro de um dos navios naquele abril de 1500 e observo a Queda da Bastilha. Estive também no set de “Cantando na chuva” com Gene Kelly e Donald O’Connor, ensaiando ao lado deles o número do “Moses Supposes”, e ajudei o Watson Macedo a filmar “Carnaval no fogo”…

Minha imaginação tudo pode.

Corri várias maratonas, visitei o sétimo céu, ganhei do Mike Tyson, fiz gol para o Fluminense, conquistei Ava Gardner e finalmente comprei aquele apartamento de 4 suítes por quatro milhões, na Praia de Boa Viagem, aqui em Niterói.

Mas o meu corpo…

Ah, caros leitores, o corpo, como o saldo bancário, não mente. Mesmo fazendo a mesma coisa a cada dia, ele insiste em revelar nervosos sentimentos, gostos desconhecidos e teima em comportar-se como um estranho.

Até o tradicional cozido ou o mesmo exercício têm gosto e promovem reações diversas. Muitas vezes, o corpo, como um malandro, falha quando dele se esperava uma atuação mecânica, tipo pestanejar que, dizem, tipifica o seu funcionamento.

Com isso, a alma (e o desejo) somem.

Pois se o corpo não ajuda, para onde vai a alma? Em outras ocasiões, ele opera em demasia e dá sinais de fome, fazendo a barriga roncar desavergonhadamente, como naquele coquetel com meus amigos ricos no Baixo Gávea ou no Alto Leblon… Rotineiramente, ele faz minhas mãos sentirem, pelo tremor, aquilo que minha “poderosa” mente deseja negar ou simplesmente aplainar.

Minha alma insiste que é eterna e, como o Terceiro Reich, vai viver além dos mil anos; mas meu corpo envelhece e tem limites palpáveis. A dor da alma pode ser disfarçada, a do corpo me obrigou a usar muletas.

Num caso a poesia resolve, noutro só um remédio. Como fazer? Quem vai, finalmente, me matar? O corpo que, velho e confortável como um sapato, vai um dia desligarse como um bom interruptor; ou a alma que, deixando de voar para além deste pobre e miserável mundo feito de mentiras, covardias, desamparo, de paixões irrealizáveis, de livros que jamais sairão das nuvens, um dia vai me libertar? Libertar ou simplesmente deletar-me, como a fumaça dos velhos e gostosos cigarros que não faziam mal?

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