Uma crise da magnitude da atual sempre machuca muita gente. Riquezas são destruídas, empregos são perdidos e a dinâmica econômica fica prejudicada. Mas há ao menos um lado positivo: a perda de poder relativo de alguns líderes autoritários. O motivo é a redução do preço do petróleo.

O petróleo atua como uma espécie de imposto, transferindo renda dos indivíduos para os governos, particularmente os piores governos. Afinal, a maioria dos países exportadores de petróleo é controlada por governos autoritários. Entre os maiores exportadores de petróleo estão países como Arábia Saudita, Rússia, Irã, Venezuela e Nigéria. Dificilmente podemos utilizar algum desses países como grande exemplo a ser seguido. E quando o preço do petróleo entra em tendência de alta, são os governos desses países que mais se beneficiam.

Foi justamente o que ocorreu desde 2003, quando o preço do petróleo iniciou forte tendência de alta. O barril, que custava cerca de US$ 30 no começo de 2004, chegou a quase US$ 150 em 2008. Isso significa centenas de bilhões de dólares saindo dos bolsos dos consumidores do mundo todo para encher os cofres de políticos corruptos e ambiciosos. Essa montanha de recursos transferidos para governos ideologicamente retrógrados representa um risco. Basta verificar as atitudes de governos como o venezuelano e o russo, causando enorme tensão geopolítica. A Rússia chegou a partir para a guerra, e Hugo Chávez vem investindo pesado em armamentos, além de financiar movimentos revolucionários na região. Sem falar do Irã, cujo líder Ahmadinejad representa um constante perigo para Israel. Em resumo, a bolha do petróleo serviu para financiar as atrocidades de vários governos populistas e autoritários.

Mesmo no Brasil, com a descoberta de campos gigantescos como Tupi, a megalomania irresponsável estava tomando conta da nação. O governo já sonhava com os infindáveis gastos por conta das novas reservas petrolíferas. O futuro incerto estava sendo hipotecado para bancar a festa no presente. Em vez de o governo continuar as licitações para permitir a exploração da riqueza pelo setor privado, a ganância falou mais alto e as regras foram alteradas no meio do jogo. Até mesmo a criação de uma nova estatal foi proposta. A descoberta de vasta riqueza natural costuma despertar este tipo de ambição nos governantes, que usam a retórica nacionalista para enganar os leigos e concentrar o poder.

A história pode não se repetir exatamente, mas ela muitas vezes rima. Este fato não é novo e o Brasil não seria o primeiro tampouco o último caso onde o ganho rápido com a riqueza natural retarda o desenvolvimento econômico do país. Em vez de representar uma bênção, o excesso de recurso natural pode ser uma praga, se as instituições e a mentalidade não forem adequadas. É análogo ao caso em que alguém totalmente despreparado acorda rico após ganhar na loteria. Os riscos de o dinheiro desaparecer numa sequência de atos irresponsáveis são enormes. O caso do governo é muito pior, pois o governante assina cheques com o dinheiro dos outros. Uma receita certa para abusos.

Eis o contexto que permite ao menos alguma comemoração em meio à crise financeira. O preço do barril de petróleo recuou para perto de US$ 50. Isso quer dizer que os governos autoritários terão menos recursos para seus estragos habituais.

Octavio Paz, o Prêmio Nobel de literatura e autor de “O Ogro Filantrópico” fez no passado um alerta importante sobre este risco. O México viveu o drama da “maldição do ouro negro” e o resultado foi lamentável. O Partido Revolucionário Institucional (PRI), integrante da Internacional Socialista, teve o poder hegemônico sobre o país entre 1929 até 2000. A existência de vastas reservas de petróleo contribuiu para isso. A estatal Pemex controlou o setor por décadas, servindo como braço do partido na economia. Por esta razão, as palavras de paz são mais atuais que nunca. Basta trocar México por Brasil e o recado está bem claro:

“Por um lado, o Estado mexicano é um caso, uma variedade de um fenômeno universal e ameaçador: o câncer do estatismo; por outro, será o administrador da nossa iminente e inesperada riqueza petrolífera. Estará ele preparado para isso? Seus antecedentes são negativos: o Estado mexicano padece, como enfermidades crônicas, da rapacidade e da venalidade dos funcionários. […] Como poderemos nós, os mexicanos, supervisionar e vigiar um Estado cada vez mais forte e rico?”

Os acionistas da Petrobras podem lamentar a perda de receita da empresa com o preço menor do petróleo. Mas, para o futuro da nação, este menor poder nas mãos do governo é extremamente benéfico. Finalmente, um lado bom nessa crise!

(Publicado hoje no Valor Econômico)

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