“Quando as pessoas temem o governo, isso é tirania; quando o governo teme as pessoas, isso é liberdade.” (Thomas Jefferson)

O candidato democrata Barack Obama foi eleito presidente americano com um repetitivo discurso de mudança. Mas como lembra o senador Ron Paul, o termo “mudança” na política sempre significa mais do mesmo: mais governo, mais inflação, mais guerras desnecessárias e mais centralização de poder. Para quem tem dificuldade de enxergar grandes diferenças entre os Democratas e os Republicanos atualmente – pois ambos passaram a representar o Big Government na prática, o manifesto The Revolution, de Ron Paul, representa uma leitura imprescindível. No fundo, a “revolução” pregada nada mais é do que um retorno às raízes, ou seja, um resgate da Constituição americana, que tem sido jogada no lixo a cada novo mandato. Em outras palavras, Ron Paul defende a postura “radical” de recuperar as lições esquecidas dos “pais fundadores” dos Estados Unidos.

A cada quatro anos, dois candidatos dominam o debate político americano com poucas divergências fundamentais, mas fingindo representar filosofias radicalmente opostas de governo. Até mesmo na questão das guerras não há tanta divergência quanto alguns pensam. Ron Paul lembra que Hillary Clinton e John Kerry, do Partido Democrata, votaram pela guerra do Iraque, sem falar das várias intervenções militares durante o governo de Bill Clinton, como em Kosovo e Somália. As questões fundamentais da política externa americana nunca são trazidas para os debates. Como de praxe, Ron Paul vai buscar nos “pais fundadores” apoio contra esta postura intervencionista americana. O primeiro presidente americano, George Washington, considerava que a grande regra de conduta em relação às demais nações deveria ser uma extensão das relações comerciais, tendo o mínimo necessário de conexões políticas com elas.

A mentalidade de não-intervenção não é a mesma que a de “isolacionismo”. Ao contrário, Ron Paul defende o livre comércio, a diplomacia e a liberdade para viagens. Os isolacionistas verdadeiros são aqueles que pregam embargos, sanções e barreiras comerciais. Ron Paul acredita que a América pode ser um líder através do exemplo, e não da força. Sendo um modelo de liberdade em casa, os Estados Unidos fariam mais pela causa da liberdade no mundo do que tentando “exportar” a democracia. Além disso, Ron Paul se mostra convicto do fracasso dessa postura beligerante americana. É claro que ela não justifica o terrorismo, mas sem dúvida fornece um motivo para a organização de grupos terroristas contra os Estados Unidos. O ressentimento de povos atacados serve como base para o terror. Entre as conseqüências não-intencionais das intervenções militares americanas está justamente o que a CIA chama de blowback, aumentando o perigo de um ataque vingativo contra os americanos.

Além disso, Ron Paul questiona a lógica dos conservadores que desconfiam da eficiência de um governo interventor demais no cenário doméstico, mas depositam enorme fé na capacidade desse mesmo governo apresentar excelentes resultados mundo afora. Sem falar que essa concentração de poder para as metas ambiciosas imperialistas acaba inevitavelmente se voltando contra o próprio povo. Basta lembrar o que o Patriot Act após o atentado de 11 de Setembro representou em termos de perda de liberdades individuais. Os governos sempre procuraram monstros externos para combater, justificando assim seu aumento de poder. Sob as condições de tempos de guerra, as propostas socialistas sempre têm se tornado a regra. Os grandes empresários “amigos do rei” aproveitam essa simbiose entre governo e economia para obter privilégios à custa do povo.

Isso não quer dizer, naturalmente, que nenhuma guerra é justificável. Um país tem total direito de atacar se for atacado. Mas essas situações peculiares que transformam uma guerra em um direito legítimo estão longe de representar a maioria dos casos de envolvimento americano em guerras. Além disso, Ron Paul chama a atenção para o fator inconstitucional cada vez mais freqüente nas guerras que o governo americano entra: o Poder Executivo decide, enquanto o poder de declarar guerra pertence ao Poder Legislativo. Presidentes poderosos costumam apresentar maior risco de uso deste último recurso, enquanto o Congresso, sob maior pressão popular, tem mais dificuldade de apelar para uma guerra. Os povos não gostam de guerras. Com isso em mente que os “pais fundadores” delegaram ao Congresso tal poder, e não ao Executivo.

A política externa americana chegou a um ponto onde seu custo de manutenção excede US$ 1 trilhão por ano. O governo americano possui tropas na Coréia por mais de cinqüenta e cinco anos! Existem tropas americanas na Europa e no Japão pelo mesmo período. Ron Paul pergunta: Quantos anos são suficientes? A presença de tropas americanas nesses locais deveria ser desde o começo, algo temporário. Mas Milton Friedman estava certo quando disse que não há nada tão permanente quanto um programa “temporário” de governo. Ron Paul acredita que esse excesso de extensão militar dos Estados Unidos poderá literalmente quebrar o país, fazer com que sua moeda perca muito mais valor. Ele enxerga o risco do retorno do alistamento obrigatório também, que transforma indivíduos em propriedade do governo. E ele lamenta profundamente o fato de que tais assuntos cruciais não são seriamente debatidos, já que ambos os lados políticos concordam que a nação necessita de tropas em 130 países!

Thomas Jefferson acreditava que a confiança no governo é em todo lugar a mãe do despotismo. A Revolução Americana foi toda feita com base nessa desconfiança em relação aos governantes. A idéia sempre foi limitar o poder central, e estimular o autogoverno dos cidadãos. A mensagem revolucionária de Ron Paul é exatamente essa: preservar a liberdade individual. Os indivíduos têm direito à vida e à liberdade, e a agressão física deve ser utilizada apenas de forma defensiva. O principal argumento contra as invasões governamentais na vida dos indivíduos é moral, e não utilitarista, como a eficiência econômica. Devemos respeitar o próximo como um ser racional, e buscar nossos objetivos através da persuasão e da razão, e não da ameaça e coerção. O governo é força, e não razão. Por isso Ron Paul tenta reacender a chama da liberdade que outrora criou a nação mais livre do mundo. Sua revolução é apenas a continuação pacífica da Revolução Americana e dos princípios dos “pais fundadores”, ou seja, liberdade, autogoverno, a Constituição e uma política externa não-intervencionista. Eis uma revolução que vale a pena defender!

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