“A Índia é para a cadeia mundial de fornecimento de conhecimento e serviços o que a China e Taiwan são para a de manufaturas.” (Thomas Friedman) O mundo está mais plano, se achatando. É o que defende Thomas Friedman, em seu livro O Mundo é Plano. O autor descreve de forma objetiva o progresso tecnológico da última década, que reduziu bastante a distância entre os indivíduos mundo afora. Tornou-se possível trabalhar à distância com muito mais facilidade. Há um claro processo de convergência em andamento. E Bangalore, na Índia, é um ótimo exemplo dessas mudanças. A competição vem se acirrando em nível global com as novas ferramentas disponíveis. Estamos em uma nova fase da globalização, onde os próprios indivíduos podem colaborar e competir no âmbito global. Como exemplo, estima-se que cerca de 400 mil declarações de imposto de renda de americanos foram feitas na Índia em 2005. Os advogados americanos acabam focando em serviços de maior valor agregado, pois a parte mais braçal está sendo terceirizada. E esse é apenas um exemplo entre vários. Bangalore já abriga inúmeras empresas prestadoras de serviços para outros países. Se antes apenas bens manufaturados eram exportados, agora temos a exportação de serviços também. Com os salários bem menores, e mão-de-obra qualificada, os indianos estão assumindo funções mais básicas, disponibilizando aos clientes globais capital e energia para outros fins. Assim como a China pressiona os preços de produtos industrializados para baixo, a Índia pressiona o preço dos serviços, e os consumidores do mundo todo ganham com isso. A inflação fica contida, o crescimento acelera e são criados novos empregos em setores mais elaborados, dependentes do capital intelectual. Além disso, a expansão da economia indiana gera mais demanda para diversos bens e serviços americanos. O desemprego nos Estados Unidos está em patamares historicamente baixos, inferior a 5%. Na verdade, estamos vendo a força das vantagens comparativas em vigor. O trabalho está indo para onde pode ser feito melhor, com custos menores. Não custa lembrar que cerca de 90% dos americanos trabalhavam na agricultura cerca de 150 anos atrás, e hoje não são mais que 4%. Essa mudança não fez mal para os americanos. Muito pelo contrário. Cerca de 245 mil indianos atendem ligações de todas as partes do mundo em firmas de call center. Esse emprego não é bem remunerado nos Estados Unidos, mas conta com razoável prestígio na Índia. São predominantemente jovens esforçados, com domínio do inglês, sonhando com um padrão de vida mais alto no futuro. Muitos agora não precisam mais imigrar para os Estados Unidos em busca de emprego. Conseguem ficar perto de casa mesmo. E se dedicam pesado aos estudos. Os cursos de administração indianos produzem quase 90 mil MBAs todo ano. A garra desses jovens, que agora contam com mais oportunidades, é impressionante. O que permitiu que a Índia desse a partida nessa trajetória foi o avanço da infra-estrutura de comunicações. Sem os abundantes cabos de fibra óptica, não seria possível o sucesso recente. As empresas de tecnologia, com seus engenheiros com PhD, estão proliferando na Índia. Apenas a título de curiosidade, uma jovem empresa indiana é a atual detentora dos direitos sobre a imagem de Chaplin para jogos de computadores portáteis. O maior centro de pesquisa da GE fora dos Estados Unidos fica em Bangalore, com 1.700 engenheiros, designers e cientistas indianos. Os chips para muitos celulares de marcas famosas são projetados em Bangalore. O rastreamento da bagagem extraviada na Delta ou na British Airways é feito em Bangalore. Radiologistas terceirizam determinados serviços para a Índia. A Reuters usa indianos para vários serviços gerais de jornalismo. Analistas financeiros indianos prestam serviços, de casa, para o mundo todo. Bangalore é o Vale do Silício indiano, e a Infosys é sua pérola, a Microsoft local. A empresa foi fundada em 1981, abriu seu capital em 1993 e atingiu uma receita anual de 100 milhões de dólares em 1999. A partir de 2000, a empresa deslanchou. Em 2001 já tinha receita de US$ 400 milhões, e em 2004 cruzou a fronteira de US$ 1 bilhão de faturamento. A empresa emprega cerca de 50 mil funcionários. A Infosys é sinônimo do sucesso recente de Bangalore. Nada disso seria possível sem o achatamento do mundo, sem a plataforma avançada de comunicações, sem a maior abertura da Índia para investidores estrangeiros e sem o novo estágio da globalização. A Índia ainda é um país pobre, claro. Foram anos de políticas socialistas com excesso de intervenção estatal na economia. Boa parte do país ainda está muito distante do mundo plano, e não terá como pegar carona no progresso gerado por ele. Mas o caso de Bangalore é sintomático, e seu efeito se espalha por toda a nação, que vem crescendo de forma acelerada. Demonstra o poder da globalização na fase da Internet, do maior nivelamento mundial, do achatamento do globo devido às quedas das barreiras geográficas. Quem resistir, ficará para trás. Quem abraçar o desafio com vontade, sem medo de competir, irá colher os frutos desse novo mundo. Bangalore está nesse time vencedor. Seu milagre tem nome: globalização!

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