De um lado, temos os recursos econômicos de um país. Máquinas, equipamentos, infra-estrutura e instalações industriais. Força de trabalho. Recursos tecnológicos. Qualidade de sua mão-de-obra, aperfeiçoada por educação e treinamento. Capital organizacional das empresas, capital institucional do país e seus recursos naturais. De outro lado, temos sua fronteira de possibilidades de produção de bens e serviços pelo uso eficiente desses recursos. Em dado período, digamos, o ano de 2007, seria impossível para o Brasil produzir além dessa fronteira com base em seus recursos disponíveis. Mas há um fenômeno extremamente relevante para o caso brasileiro, responsável por episódios históricos de crescimento exuberante. Não se trata do crescimento clássico, em que a dinâmica de acumulação de recursos produtivos sustenta um contínuo deslocamento da fronteira de possibilidades de produção. São mesmo quase um “milagre”: o ritmo de produção dispara com base em praticamente a mesma disponibilidade de recursos. Esse fenômeno deve-se ao fato de que, por ineficiência, capacidade ociosa ou má alocação de recursos, o país se encontra bem abaixo de sua fronteira de possibilidades de produção. O que torna possível um rápido crescimento da produção pela superposição de dois movimentos: a marcha “milagrosa” em direção à fronteira tecnologicamente viável enquanto se desloca a própria fronteira pela clássica dinâmica de acumulação de recursos. É o crescimento em dose dupla: a Europa no pós-guerra, o Japão e os Tigres Asiáticos há três décadas e os retardatários antes socialistas como Rússia, China, Índia e as economias do Leste Europeu. Como explica Edward Prescott, Prêmio Nobel de Economia em 2004, os “Obstáculos ao Enriquecimento” (2000) “resultam essencialmente de políticas específicas, restringindo as práticas de negócios, a criação de empregos e o uso eficiente de recursos produtivos pelas empresas. Esses obstáculos, verdadeiras barreiras ao enriquecimento, derrubam a produtividade dos recursos, a produção e a renda do país. Uma condição necessária para um país experimentar um milagre econômico, um desenvolvimento acelerado, é que não esteja se utilizando plenamente do enorme estoque de conhecimento disponível, exatamente pela existência dessas barreiras ao uso eficiente dos recursos. É tão mais formidável o milagre quanto mais impeditivas forem as barreiras e por quanto mais tempo tenham prevalecido”. O excesso de regulamentação e burocracia por obsoleto intervencionismo da “esquerda” ou pressões oportunistas de grupos de interesse conservadores significa, portanto, enorme potencial para um surto “milagroso” de crescimento. Mas o que parecia uma improvável aliança entre a “esquerda” e os conservadores tornou-se o principal obstáculo à modernização. É acertada a intuição do presidente na tentativa de “destravar” o crescimento. Mas o único “milagre” possível exige o que a social-democracia nunca pôde oferecer: o choque de produtividade das reformas, a ousadia das desregulamentações e o enfrentamento dos grupos de interesse organizados.

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