O modelo asiático acabou?

Marcos Troyjo

Antoine Von Agtmael, antigo funcionário da International Finance Corporation (IFC) creditado como formulador do termo “Mercados Emergentes”, defende em recente texto na revista ‘Foreign Policy’ que o Milagre Asiático estaria acabando. Será que isso é verdade?

Guru de investimentos, Agtmael argumenta que mercados mundiais mais protecionistas e custos de mão de obra crescentes estariam minando as vantagens relativas da Ásia.

A retomada econômica do Japão após a II Guerra Mundial, turbinada pelo Plano Marshall, gerou repetidos ganhos de produtividade e salariais para os japoneses. Com o consequente aumento nos custos da mão de obra no Japão, nos últimos 40 anos transferiram-se empreendimentos para países mais tarde conhecidos como “tigres asiáticos”.

Esta dinâmica fez da Ásia região especializada em “adaptação criativa” – que convidada a um perfil fortemente exportador. Nascia assim o “Modelo Asiático”.

Tal modelo lograva basicamente produzir versões mais baratas – e muitas vezes mais eficientes – de tecnologias existentes, e alcançaram excelência na exportação de produtos manufaturados.

A pujança de conglomerados multissetoriais é uma das principais marcas da economia sul-coreana, chinesa e japonesa

Graças a esse modelo, os japoneses há um tempo tornaram-se os maiores exportadores de bens de capital para os EUA – posição em que foram ultrapassados recentemente pela China.

Esta, por seu turno, é o principal destino de exportações de bens de capital de um outro ilustre intérprete do “modelo” a a Coreia do Sul. Outra interessante característica do Modelo Asiático é o desapego ao chamado core business.

A pujança de conglomerados multissetoriais é uma das principais marcas da economia sul-coreana, chinesa e japonesa. A sul-coreana Samsung tem 86 áreas de negócios. A BAD chinesa faz carros elétricos e telas de computador. A Mitsubishi japonesa produz foguetes especiais e automóveis de passeio.

O Modelo Asiático foi, em verdade, interpretação específica de um modelo mais amplo, o da “Nação-Comerciante”, estratégia que prioriza mercados externos e atração de investimentos estrangeiros diretos como principais trampolins para a prosperidade.

Este modelo, com suas adaptações pertinentes, também foi plenamente utilizado em países como Alemanha e Chile. Contrasta com o modelo de “Nação-Passivo”, que privilegia mercado consumidor interno e proteção paternalista de indústrias locais, além de combinar baixas taxas domésticas de poupança e investimento.

Em sua vertente asiática, tal modelo não está acabando, mas evoluindo.

Constituiu-se como grande instrumento gerador de excedentes. O investimento em Pesquisa & Desenvolvimento (P&D) na Ásia e a subsequente expansão de patentes e exportações mais sofisticadas são boas provas de tal evolução.

Hoje a China já investe 1,5% de seu PIB em P&D, o Japão 2,7% e a Coreia do Sul 3,3% (mais do que o triplo do Brasil, que despende apenas 1%). Com essa importante base de capitais e conhecimentos alcançados, os países asiáticos encontram-se em melhor posição para moldar seu próprio futuro.

Este, para que seja êxitos, demandará algo além da disciplina que também distingue os asiáticos: doses crescentes de liberdade e empreendedorismo a requisitos imprescindíveis das sociedades movidas por inovação.

Fonte: Brasil Econômico, 19/06/2012

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