O mundo na UTI

A economia mundial saiu da emergência para a UTI, segundo o novo relatório do Banco de Compensações Internacionais, de Basileia, também conhecido pela sigla BIS (Bank for International Settlements). Quanto a isso há pouca discussão. Um enorme desacordo começa a partir desse ponto, quando se trata de escolher os próximos passos para a superação da crise. Num extremo está o americano Paul Krugman, articulista do The New York Times e ganhador do Prêmio Nobel de Economia. Segundo ele, o mundo pode estar no começo da terceira depressão. A primeira ocorreu depois do pânico de 1873. A segunda foi o desdobramento da crise financeira de 1929-1931. O novo desastre só será evitado, em sua opinião, se os governos do mundo rico mantiverem os estímulos fiscais até a recuperação se firmar e deixarem para depois a arrumação das contas públicas. No extremo oposto estão os economistas do BIS.

Em seu novo relatório anual, divulgado segunda-feira, esses economistas fazem um retrospecto da crise, analisam suas causas e enumeram os novos desafios. A recuperação, segundo eles, ainda é frágil e desigual, mas “o suporte macroeconômico tem limites”. E acrescentam: os limites do estímulo fiscal foram alcançados em vários países, como demonstram reações recentes dos mercados. É óbvia a referência aos grandes buracos orçamentários e à dívida crescente não só de pequenas economias, como Grécia e Portugal, mas também de potências de peso muito maior, como Espanha, França e Reino Unido.

A receita apresentada inclui a consolidação fiscal imediata em vários países industriais, a conclusão da reforma bancária e também uma série de mudanças microeconômicas para facilitar o crescimento econômico. Essa pauta, bem conhecida, envolve alterações na previdência, a adoção de regras mais flexíveis para o mercado de trabalho e, mais amplamente, a criação de um ambiente favorável ao investimento e à busca da competitividade. Um complemento inevitável é a procura de um novo equilíbrio entre superavitários e deficitários nas contas externas ? mensagem dirigida a vários emergentes, mas principalmente à China. Um ponto forte da argumentação é a referência aos bancos. Estão mais lucrativos e mais fortes do que nos piores momentos da crise, mas são ainda vulneráveis às mudanças de humor no mercado e ao contágio dos problemas fiscais: governos deficitários e altamente endividados são um grave risco para o sistema financeiro.

Reunidos no fim de semana em Toronto, no Canadá, chefes de governo do G-20, o grupo das maiores economias desenvolvidas e emergentes, tentaram conciliar as duas perspectivas. Suas decisões, segundo Krugman, foram decepcionantes porque privilegiaram as políticas de ajuste. Segundo outros, a conciliação deixou o grupo em cima do muro.

As 27 páginas do comunicado final contam uma história um tanto diferente. O texto ressalta a recuperação desigual e frágil, como o relatório do BIS, e contém uma clara advertência sobre o risco do ajuste sincronizado no mundo rico. Mas, apesar desse risco, a consolidação fiscal é necessária. A confiança nos governos dependerá também disso. Negligenciar essa tarefa poderá igualmente prejudicar o crescimento.

A solução, portanto, não é escolher um ou outro caminho, mas buscar a combinação possível entre as duas tarefas. Por isso será conveniente diferenciar as políticas de ajuste. Terão de ser mais severas nos países com maiores problemas fiscais e bem mais suaves naqueles com desajustes menores.

No mundo rico, os menores déficits fiscais estão na faixa de 3% a 4% do Produto Interno Bruto (PIB). Os maiores estão próximos de 12% e há vários no intervalo de 6% a 8%. Com o acordo para cortar os déficits pela metade até 2013, as economias em melhor condição fiscal poderão realizar um ajuste menos drástico. É o caso da alemã, a maior da Europa. Mas a contribuição da Alemanha só será proporcional à importância e às possibilidades do país se as suas importações crescerem mais velozmente.

Seria provavelmente irrealista cobrar estímulos fiscais por mais tempo dos governos com maiores desajustes, como o espanhol e o britânico. Não se pode pôr entre parênteses, como se fosse irrelevante, o problema do financiamento dos Tesouros em pior situação, nem o risco de novas quebras no sistema bancário. De toda forma, a recuperação global só se firmará dentro de alguns anos. Poderá ser lenta e desigual, mas, na melhor hipótese, não haverá retrocesso. Em algum momento, nos próximos meses, talvez os candidatos à Presidência do Brasil se interessem pelo assunto. Afinal, será essa a moldura do novo governo. Por enquanto, não parecem haver notado.

Fonte: Jornal “O Estado de S.Paulo” – 30/06/10

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