O mundo segue desequilibrado

A crise que atinge o mundo todo, embora tenha origem direta no sistema financeiro, é também consequência de desequilíbrios na economia real. Logo, a saída do embrulho passa por dois movimentos: sanear o sistema financeiro e mudar a estrutura da economia global, algo como refazer as relações entre os países e, dentro destes, as relações entre pessoas e classes. Esse é o entendimento de boa parte dos economistas e políticos, tanto no mundo desenvolvido quanto nos emergentes.

Também há razoável concordância sobre o desequilíbrio principal: está nos EUA, justamente a maior economia do planeta – aliás, muito maior. O PIB americano estava em torno dos US$ 14 trilhões. O segundo é o do Japão, cerca de US$ 4,8 trilhões, seguindo-se China e Alemanha, na casa dos US$ 3 trilhões cada um, e Inglaterra (US$ 2,7 trilhões).

Reparem: para juntar um EUA é preciso somar tudo o que é produzido por japoneses, alemães, chineses e ingleses e ainda faltam uns US$ 500 bilhões, ou algo como o PIB do Mercosul sem o Brasil. (E, para pagar a curiosidade, o Brasil produziu no ano passado o equivalente a US$ 1, 57 trilhão).

Que o centro do desequilíbrio esteja nos EUA, já se vê, é um enorme complicador. Mas a situação é ainda mais complexa: foi o desequilíbrio básico dos EUA que movimentou toda a economia mundial. Explicando: o problema com os EUA é que o país, o governo e as pessoas passaram anos a fio gastando mais do que ganhavam, sem poupança e tomando dinheiro emprestado quase sem limite. Essa tremenda demanda estimulou produção e investimentos mundo afora. O negócio é, ou era, vender para os americanos. Não por acaso, o mercado americano sempre foi o principal destino das exportações de um grande número de países, Brasil incluído.

Mas, no essencial, do outro lado do desequilíbrio está a China, o reverso da medalha: em vez de consumo, poupança que chega a passar de 40% do PIB e investimentos maciços em fábricas e infraestrutura – pagando salários baixos e com custos mínimos.

Boa parte da máquina chinesa se fez com capital estrangeiro, especialmente americano. Ainda na semana passada, por exemplo, a falida GM anunciou planos de revitalização que incluem vender nos EUA os carros (muito mais baratos) que ela mesma produz na China.

Resumindo: capitais foram para a China e se somaram à poupança local. E as fábricas lá passaram a produzir para vender nos EUA, cujos consumidores se endividaram torrando dinheiro nos shoppings. E como foram financiados? Com o dinheiro que chineses e outros ganharam vendendo para os americanos. (Hoje a China é a principal detentora de títulos do governo americano, com US$ 767 bilhões; o Japão, outro que se fez vendendo para os EUA, é o segundo, com US$ 686 bilhões; o Brasil ocupa a honrosa posição de sétimo detentor de títulos americanos, com US$ 126,6 bilhões.)

Falamos mais da China porque foi a potência que emergiu nesse esquema. Mas estão nessa jogada muitos outros países, incluindo todos os asiáticos. E há economias, como a brasileira, que pegaram dupla carona: nós vendemos produtos acabados nos EUA, mas também exportamos para a China minério de ferro, aço e celulose, por exemplo, que entram nas mercadorias que os chineses vendem nos EUA.

Ora, não é possível que a dívida americana continue aumentando, contra a poupança do resto do mundo. Conclusão, na nova ordem internacional, digamos assim, os EUA precisam gastar menos (poupar mais e começar a reduzir a dívida), enquanto os outros precisam gastar mais em seus próprios países e inclusive importar mais dos EUA.

Tão fácil falar quanto difícil fazer. Considerem a China: será necessário elevar o valor da moeda para aumentar o poder aquisitivo do país. Será preciso aumentar os salários internos e os benefícios concedidos aos trabalhadores para que eles não precisem poupar tanto e possam consumir mais (hoje, como não têm aposentadoria nem saúde públicas, os chineses guardam dinheiro desesperadamente. Também as famílias precisam reservar recursos para pagar a faculdade dos filhos. É… o comunismo deles é de trabalho pesado).

Não é fácil operar essa mudança. Elevaria os custos de produção e tornaria o país menos competitivo. Além disso, a China precisa de cada vez mais fábricas e obras para empregar os cerca de 500 milhões de habitantes, muito pobres, que ainda moram no campo e querem entrar no país moderno. Mesmo ganhando pouco ali, é melhor do que nas áreas rurais atrasadas. De outro lado, não será simples dissolver a cultura do consumo nos EUA. Cultura e essência econômica.

Por isso, embora haja certo acordo quanto aos diagnósticos, o que se vê de prático é outra coisa: medidas para sair da crise vão no sentido dos desequilíbrios. O pacote do governo chinês prevê gastos pesados em obras de infraestrutura e quase nada para programas sociais ou que melhorem a renda das pessoas. Já nos EUA, programas incluem estímulo ao consumidor: meios para reabrir o crédito, por exemplo, e devolução e/ou redução de impostos para certos setores da população. E lembrem-se do que planeja a GM: vender nos EUA os carros produzidos na China.

Autoridades chinesas já disseram que, em tese, americanos precisam poupar mais e eles, chineses, gastar mais. Mas ressalvaram: os americanos não podem fazer isso num momento de queda tão forte da demanda mundial. Não há como substituir esses consumidores. E os chineses têm a poupança na alma.

Resumo da ópera: resolvida a crise financeira – no sentido estrito de se fazer a limpeza no balanço dos bancos -, o mundo voltará a funcionar desequilibrado. Encaminhar a solução para isso vai levar mais tempo e muito mais coordenação entre os países.

(O Estado de S. Paulo – 18/05/2009)

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