Nacional-desenvolvimentismo foi como ficou conhecido o sistema de crenças que apoiava o modelo de crescimento econômico adotado no Brasil a partir dos anos 30. Suas bases objetivas eram o financiamento do investimento público através da inflação e a busca da autarquia pela substituição de importações. Suas bases subjetivas foram construídas em torno do mito do Estado Redentor, o único Demiurgo do Desenvolvimento, o Leviatã que conduziria o país na senda do progresso superando quaisquer obstáculos. No meio século que vai da crise de 1929 até o início dos anos 80, a participação do Estado na economia cresceu muito, e a inflação também. Mas o crescimento foi tão espetacular quanto a ampliação da desigualdade, sendo esse o preço a pagar pelo rápido progresso, e também a chave para entender o colapso do modelo. A democracia fez crescer a resistência à inflação e decretou, quando da hiperinflação, a rejeição definitiva do velho desenvolvimentismo. Não existe, nos dias de hoje, dúvida sobre o fato de que será o setor privado o demiurgo do próximo ciclo de crescimento, ou do próximo “modelo”, se é que a expressão vale para o que virá. O Estado já cobra impostos demais e, endividado, mal consegue pagar suas contas. Como imaginar que vá ter papel muito relevante na próxima etapa do crescimento brasileiro? O fato é que a tecnologia para fazer o setor privado investir é absolutamente diversa daquela que servia para o investimento público. A iniciativa não é do político, a partir de “planos de desenvolvimento”, mas da figura do empreendedor, milhares e milhares deles, pequenos, médios e grandes, agindo de forma descentralizada, obedecendo a seus instintos e aos sinais do mercado. Esses agentes do progresso carecem de uma ideologia que os defina como tal, uma espécie de “nacional-empreendedorismo” que ocupe o espaço ainda habitado, ou invadido, pela velha ideologia desenvolvimentista. Já são perceptíveis no mundo empresarial alguns novos valores estranhos aos modos de pensar do tempo de JK ou do general Geisel: por um lado, o desprezo pelo setor público, ou a postura de distanciar-se o mais possível desse gigante predador, que pode destruir o seu negócio num momento de distração, mudando um regulamento sem atinar para as conseqüências. Por outro lado, a meritocracia como paradigma, a excelência empresarial, a busca da produtividade, a falta de piedade com a concorrência, a ousadia e a criatividade. Foi necessário que a abertura, a privatização e os investimentos diretos invadissem o Brasil para que o setor privado, ou as melhores partes dele, adotasse essa nova cultura de competência e competitividade, à moda de outros países que se sentem à vontade como economias de mercado, transição ainda incompleta no Brasil. Já com relação ao governo, as reformas não andaram nem de perto com a mesma rapidez, o que apenas fez aumentar o descompasso entre um novo empreendedorismo que cresce por sua própria conta e um Estado falido, decadente e ainda iludido com o seu gigantismo, como se isso representasse efetiva capacidade de conduzir os destinos econômicos do país. Quem sai da faculdade hoje com uma boa idéia na cabeça e pensando em tornar-se um empreendedor, formar sua empresa e fazer fortuna pode começar a se desiludir ouvindo conselhos já clássicos: no Brasil o caminho mais seguro para uma vida sem sobressaltos sempre foi um emprego público, ou talvez um bom casamento. Outro, mais arriscado, é um empreendimento apoiado pelo governo. Mas, como essas prebendas não existem mais em quantidade suficiente, o nosso jovem empreendedor, ao insistir nessa vocação, terá de enfrentar um ambiente hostil, impostos e juros elevados, competidores na informalidade e falta de apoio até no plano subjetivo: que valor se dá ao empreendedor no Brasil? Ele é a chave do progresso, mas parece pairar sobre ele, por causa de velhas concepções, uma névoa de desconfiança, como se ganhar dinheiro criando empresas fosse “privatizar” indevidamente o progresso, função supostamente precípua do Estado.

Veja, Edição 1865, 04 de agosto de 2004

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