‘Vovô – perguntou umas das minhas netas -, por que a gente vê e acompanha as novelas?’ A indagação se endereçava não tanto ao avô que, sendo professor, autor de livros e ‘antropólogo-antropófago’ (de idéias, é claro), tinha a obrigação de saber a resposta, mas a todo grupo que, de olhos vidrados, assistia a mais um capítulo de Paraíso Tropical em mágica sincronia com milhões de outras pessoas.

De fato, tirante a novela, o carnaval, o futebol e os eventos não previstos pelas rotinas – como a visita do papa que faz o mais empedernido materialista dialético e o mais enfurecido ateu virar ‘católico’ -, só o vergonhoso cotidiano dessa atividade contraditória que chamamos de ‘política’, faz com que alguém entre em sincronia com seus semelhantes no Brasil.

Achei a pergunta pertinente porque ela deixava de lado o julgamento de valor. O seu centro não era saber se a novela era boa ou ruim, se diminuía ou elevava os espíritos (como gosta de colocar a esquerda estrelada que odeia, mas vive da televisão; e agora vai montar uma indefinível ‘TV pública’), mas queria discutir o poder de atração dessa forma de narrativa feita de situações em série, ligada entre si por meio de ganchos retóricos repetitivos, como o arcaico folhetim, mas contada por meio de imagens sucessivas e planos rápidos, palavras, gestos, montagem e música, como o moderno cinema.

Respondi que a novela atraía e enredava porque – como o Brasil das pessoas comuns, o nosso Brasil – ela contava muitas histórias ao mesmo tempo, combinando múltiplas vidas, profissões, personagens, destinos, relações e situações. São tantos contextos e personagens que alguma coisa acaba nos agarrando, promovendo uma densa identificação. Seu poder de ‘dar o que falar’ e de agregar o público era proporcional aos dilemas que ia apresentando paulatina, ciclicamente. De modo que quando um caso de amor terminava, a narrativa desvendava um ato criminoso, e assim por diante. Era uma forma de arte que simultaneamente prometia as certezas que aliviam e sustentam o voyeurismo, mas não deixava de garantir o inesperado, que é o sal da boa trama.

Por causa disso – acrescentei entusiasmado como sempre, mas sem ver que ninguém estava prestando a menor atenção ao que dizia, pois continuavam colados a telinha -, há em toda novela um núcleo articulador – uma rede central de intrigas – que serve de referência ao que se passa ao seu redor. Tal núcleo, ou centro dramático, pode ser uma academia de ginástica, uma empresa, um casarão, uma fábrica ou um clube, mas dentro desse quadro, o miolo é sempre uma família. Um grupo construído por laços de carne e sangue, atribuído pelo destino (ou por Deus), e dado a cada um de nós por nascimento. Esses laços – enfatizei olhando firme para dentro dos olhos de minha neta – que, no Brasil, são vistos como indestrutíveis e baseados em lealdades perpétuas, estão em oposição permanente com as relações individuais fundadas em escolhas, feitas fora da casa, por meio daquilo que se chama de liberdade.

É o conflito entre essas lealdades de sangue (dadas pelo nascimento), e os interesses individualizados, descobertos pelo amor e pelo erotismo que, com suas ricas variações, forma o tema central das novelas. A história é velha como um mito, todo mundo sabe o seu final e, no entanto, como ela é contada (e não vivida), como é algo a ver visto de fora para dentro (e não ao contrário), todo mundo assisti com interesse.

Ora, completei, esse embate entre a obrigação (que tem a ver com o dever para com a família) e a escolha individual (que promove riscos, pois está centrada num distanciamento do grupo em que se nasce) é muito brasileiro. Fala de como os laços de sangue são tão poderosos quanto as tais ‘empresas’ ou ‘grupos’ empresariais que, não apenas na novela, mas no Jornal Nacional, fazem manchete com seus conflitos sucessórios e suas sagas matrimoniais.

Deste modo, novela vai, novela vem, e o drama é sempre o de honrar os laços formados na casa e de ser, na rua, um indivíduo bem-sucedido. Coisa complexa quando sabemos que as normas da rua promovem uma apreciação igualitária das ações e, as da casa, o contrário. Assim, o mandão hierarquiza; mas seus filhos, mulher ou empregados são governados pela igualdade.

‘Mas vovô, isso acontece em todas as histórias…’ – retorquiu minha neta.

Sem dúvida… Mas em outros trópicos, o ponto todo é romper com a família e individualizar-se completamente, entrando de cabeça num mundo no qual não se tem nenhuma relação pessoal. Mas na novela, tudo pode ocorrer, menos cortar relações. Nosso romance não é biográfico. Não narra a saga de um descobrir-se individualmente, como as histórias inglesas e alemãs. Nele, a regra é o equilibrar-se no fio de navalha constituído pelo individualizar-se sem, em nenhum momento, livrar-se desses laços de família que são leves como as penas de um pardal, mas pesam como chumbo.

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