A mais importante disputa pelo poder no próximo governo Lula não se dará entre forças políticas convencionais, como governo e oposição ou tucanos e petistas. O mais importante confronto por cargos e recursos públicos não ocorrerá entre o PT, o PMDB e demais partidos aliados. Não será também o superado embate entre “esquerda” e “direita”, ultrapassado pela moderna síntese da Grande Sociedade Aberta. E muito menos o antiquado choque entre duas correntes econômicas supostamente antagônicas: os “desenvolvimentistas”, defensores do crescimento, contra os “fiscalistas”, defensores da responsabilidade fiscal. É claro que essas batalhas ocorrerão. Algumas são apenas uma farsa política, como as repetitivas disputas entre correntes da mesma social-democracia. E outras, apenas uma farsa econômica, pois um regime fiscal consistente é poderoso lubrificante para a engrenagem do crescimento econômico. O antagonismo é disfarce hipócrita da disputa pelo poder, na tentativa de desqualificar ocupantes de cargos desejados. A verdadeira guerra, a mãe de todas as batalhas, se dará em outro campo. De um lado, nos antigos eixos do poder, os agentes do atraso, sempre conservadores. Promovem uma descontrolada expansão de gastos públicos, bombardeiam incessantemente a única instituição brasileira de Primeiro Mundo, o Banco Central, que preservou o poder de compra dos salários, da poupança, das aposentadorias e da Bolsa-Família. Impedem a descentralização operacional do Estado brasileiro. Conservam zelosamente organizações sindicais – de patrões e empregados -, a legislação e os encargos trabalhistas, obsoletos postos de defesa de seus privilégios. Defendem a atuação centralizada e intervencionista do Estado. De outro lado, as forças da modernização, que se organizam em torno de novos eixos. Exigem do Estado o cumprimento de suas funções clássicas de segurança e justiça. Como também a execução eficiente de suas modernas atribuições: a educação, como o principal fator de criação de riqueza nas sociedades modernas, e a rede de proteção social, em solidariedade aos que foram deixados para trás – focalizada nos pobres e operada de forma descentralizada por Estados e municípios. Prefeitos, governadores e suas bancadas representam as legítimas e irresistíveis pressões por recursos públicos em uma democracia emergente. “A raiz dos grandes problemas brasileiros é a crescente e absurda concentração de receitas tributárias nas mãos da União”, afirma o governador mineiro, Aécio Neves. Em torno desse novo eixo estariam também, já se articulando, governadores eleitos como Sérgio Cabral, Yeda Crusius, Paulo Hartung, Eduardo Campos e – por que não? – José Serra. Essa guerra tem faces e contornos ainda indefinidos. Mas os primeiros movimentos do presidente Lula reforçam o eixo da modernidade. Desautorizou os ataques ao Banco Central, insinua um formidável choque de produtividade e gestão na máquina federal, ao sondar o empresário Jorge Gerdau Johannpeter, e tem conversas marcadas com os governadores em busca de uma agenda comum, definindo o novo eixo do poder.

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