Os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro em 2016 representam um enorme desafio. A cidade foi capaz de organizar o Pan-Americano de 2007, mas ele foi um exemplo do que esses eventos não devem ser: uma fonte de grandes despesas, com benefícios escassos para a cidade. Gastamos recursos expressivos e, dois anos depois, o Engenhão está alugado por um preço irrisório: o parque aquático está em condições deploráveis: o etorno da Vila Olímpica é uma vergonha e, os congestionamentos estão piores do que em 2007, para não falar da persistência da violência.

As razões pelas quais o Rio deslumbra são conhecidas, mas é evidente que a insegurança na cidade assusta, o sistema de transporte funciona muito mal e o estado de lugares-chave, como a Baía de Guanabara ou o aeroporto, é constrangedor. As políticas do governo estadual estão melhorando claramente em relação ao passado e, a partir de janeiro, passamos a ter uma prefeitura que procura atender melhor a população, depois do abandono na qual a cidade tinha mergulhado até 2008. Apesar disso, a distância entre o Rio oferece e o que deve exibir para poder brilhar em 2016 é enorme.

Há três frentes de atuação onde será preciso investir. A primeira frente é uma questão de postura: o Rio precisa abandonar a complacência com a indolência e a transgressão. Simbolicamente, no dia em quem para ver um jogo no Maracanã, for possível comprar ingressos pela Internet, em vez de enfrentar filas enormes vendo os cambistas oferecendo ingressos sem que a polícia faça nada, teremos dado um passo nessa direção.

O Rio é o lugar por excelência do”ilegal, e daí?” e isso tem que acabar. Espetáculos como o de uma frota de carros onde parte expressiva da mesma está em situação irregular, por ser tratar de veículos que jamais poderiam estar na rua se passassem por uma vistoria, pertencem a um RJ que envergonha e que tem que mudar radicalmente.

A segunda frente é ter um plano de segurança que acabe com a figura das áreas dominadas pelo crime, não apenas em algumas comunidades, mas no RJ como um todo. É preciso ter um esquema de ocupação permamente das favelas para eliminar o tráfico como expressão de poder nos morros. Para isso, devolver a rua às pessoas comuns – um ato de cidadania – deve ser uma prioridade do poder público. Experiências bem-sucedidas como a do Dona Marta devem ser repetidas na cidade inteira. E, obviamente, aberrações como os arrastões de roubo de carros ou assaltos a prédios dos últimos dias têm que acabar definitivamente.

Por último, será preciso investir pesadamente em infra-estrutura e meio ambiente. Um aeroporto de primeiro nível, a melhora do sistema de trens, a solução de problemas que travam há anos a expansão mais rápida do metrô e uma política ambiental exemplar são candidatos a constar desse plano.

O Pan 2007 deixou algumas instalações, dívidas e mais nada. Os Jogos Olímpicos de 2016 devem ser o oposto disso. As olimpíadas não podem representar apenas 20 dias de festa. Elas devem deixar como legado uma cidade mais segura, ecologicamente mais sadia e com um melhor sistema de transportes. É isso que dará sentido aos Jogos de 2016. O RJ está de parabéns, mas temos 7 anos de árduo trabalho pela frente.

(O Globo, 03/10/09)

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