Eis aí a economia do Brasil, mais uma vez, levando nota ruim de um corpo de jurados internacionais. Saiu na semana passada uma lista do Banco Mundial comparando o grau de dificuldade que os países apresentam para a instalação e o desenvolvimento de negócios, e o Brasil ficou no último lugar possível, entre os 183 pesquisados, em matéria de travar o progresso com impostos. O empresário brasileiro, segundo o Banco Mundial, é o que tem de trabalhar mais para pagar impostos: 2 600 horas por ano, quatro vezes mais que a média da América Latina, que já é muito ruim, e 40 vezes mais que a média de países como a Suíça, por exemplo, que está entre os mais bem colocados. Não é uma surpresa, realmente. Entra lista, sai lista, entra um critério, sai outro, e o Brasil está sempre lá, no mesmo fundão da classe. Também não surpreende ninguém que os países mais desenvolvidos do mundo estejam entre os que exigem menos horas trabalhadas para pagar impostos — e que os mais atrasados estejam na posição exatamente contrária. Só neles, e aqui, o poder público continua convicto de que sua missão mais preciosa é arrecadar. É o que está fazendo.

Até o início de setembro, o total dos impostos cobrados neste ano de 2009 pela União, estados e municípios já estava nas vizinhanças dos 720 bilhões de reais; pode chegar, até 31 de dezembro, à bela soma de 1 trilhão. Nem por isso o governo, o mundo político que o sustenta e os órgãos técnicos que lhe fornecem números estão satisfeitos. O governo federal e a “base aliada”, por exemplo, consideram-se vergonhosamente roubados, até hoje, pelo fim da CPMF, que acrescentaria uns 40 bilhões à cifra citada anteriormente. Já querem, inclusive, reencarná-la com outro nome e a mesma tapeação que utilizavam para mantê-la viva: a de que o dinheiro arrecadado será aplicado na “saúde”. É obvio que não vai se comprar um único rolo de esparadrapo caso a “contribuição” venha a ser ressuscitada; se ela fosse mesmo gasta em saúde, já teria feito do Brasil, durante os anos todos em que existiu, um país exemplar. Isso servirá apenas para tornar o Brasil ainda mais caro do que já é e garantir seu lugar no pé da próxima lista do Banco Mundial.

Sempre é um exercício interessante, nessas horas, ver o que está se fazendo na prática com o oceano de dinheiro que o governo cobra dos brasileiros a cada minuto; é onde se entende, realmente, por que cobra tanto. Os demonstrativos estão por toda parte, onde quer que se olhe. A Folha de S.Paulo, por exemplo, acaba de revelar que o Senado Federal pagou 70 000 reais para a senadora Ideli Salvatti, do PT, e um funcionário de sua equipe fazerem um curso destinado a melhorar suas competências gerenciais. Tudo bem: é uma miséria, considerando-se os 560 bilhões de reais em impostos que o governo federal, sozinho, já raspou para seu caixa neste ano. Mas é como a história da formiga. Uma formiga solitária, comendo uma folhinha aqui e ali, não quer dizer grande coisa. Mas um formigueiro completo, quando está com fome e disposição para trabalhar duro o tempo todo, acaba com qualquer jardim. É esse, justamente, o problema. A senadora Ideli não é a única que faz esse tipo de coisa; o difícil, na verdade, é encontrar quem não faça, entre os seus pares e mais a tropa toda que tem acesso a dinheiro público, do Oiapoque ao Chuí. Some-se tudo o que consomem e fica fácil entender por que o governo precisa de tanto imposto — e por que o contribuinte tem de gastar tantas horas de trabalho para pagar a conta.

O episódio da senadora não melhora com os detalhes. A empresa que forneceu os cursos pertence a um filiado do PT. O programa envolveu viagens a Buenos Aires, Sevilha e México; são cidades que somam uma extraordinária coleção de virtudes, mas entre elas não está a de serem centros mundiais de business coaching — tema, anunciado em inglês, que a empresa do companheiro foi paga para ensinar à senadora e a seu assessor, ambos brasileiros, em cidades onde se fala espanhol.

Jamais haverá dinheiro que chegue.

Fonte: Revista Exame, publicado em 23 de Setembro de 2009.

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