“Políticos e fraldas devem ser trocados com freqüência, e pelo mesmo motivo.” (Eça de Queiroz)

A Câmara colombiana aprovou o projeto de referendo que poderá permitir ao presidente Álvaro Uribe concorrer a um terceiro mandato presidencial. O texto precisa ainda ser analisado pela Corte Constitucional, e Uribe ainda não se manifestou se pretende ou não ser candidato. Mas tudo indica que sim, a começar pelo seu elevado índice de aprovação, chegando a quase 70%. Se isso for mesmo adiante, e as regras mudarem no meio do jogo para Uribe estender sua gestão, será um enorme retrocesso para a América Latina.

O governo de Uribe tem sido, sem dúvida, o menos pior da região, o que não é muito difícil. Afinal, a base de comparação é extremamente ruim. A região está tomada por governantes populistas de esquerda, admiradores do ditador cubano Fidel Castro, defensores dos guerrilheiros das Farc, e antiamericanos do tipo mais patológico. Em meio a esta turma, fica fácil se destacar de forma positiva. Uribe tem combatido os traficantes ideológicos das Farc e não tem apelado para a retórica de demonizar os Estados Unidos para conquistar votos, muito comum na região. A Colômbia, com isso, progrediu bastante em relação ao restante dos países latino-americanos.

Mas nada disso justifica a tentativa de mexer nas regras para garantir a manutenção do governo atual no poder. Para piorar, tudo indica que os meios utilizados para tal fim foram os piores possíveis, incluindo a compra de votos dos opositores. Justamente pelo fato de a Colômbia não ser apenas mais um reduto dos caudilhos “bolivarianos” é que Uribe deveria evitar esta tentação. Seu ato, caso se concretize, acaba dando certo respaldo aos demais presidentes que pretendem continuar ad infinitum no poder. Afinal, a nova desculpa de todo petista, quando acusado de corrupção ou autoritarismo, é repetir que “os outros também são”. Não resta a menor dúvida de que os defensores do projeto de poder socialista irão apelar para esta patética defesa, alegando que “até Uribe” fez também, como se isso desse alguma legitimidade aos seus atos.

O único presidente americano que governou por três mandatos foi justamente o mais autoritário de todos. FDR invadiu de forma assustadora as mais básicas liberdades, concentrou poder no Executivo de forma impensável anteriormente, e adotou um planejamento central da economia digno de uma ditadura soviética. Sua equipe era formada por admiradores do modelo socialista, como o poderoso Rex Tugwell. Ao tomar conhecimento do New Deal e mais especificamente do NIRA, Benito Mussolini teria dito “eis um ditador”. Ao contrário do que muitos ainda repetem, o programa autoritário de Roosevelt prolongou a depressão, e os Estados Unidos tinham um desemprego acima de 17% em 1938. Para piorar, Roosevelt deixou como herança maldita inúmeras instituições que continuaram prejudicando o progresso americano, drenando recursos da iniciativa privada para o governo.

Por todos os ângulos analisados, a experiência americana com um presidente centralizador fracassou. Parece uma lástima o fato de a América Latina copiar apenas as coisas erradas dos Estados Unidos. Os alicerces de seu sucesso foram justamente os itens que mais faltam na região, a saber, mais liberdade individual, respeito maior à propriedade privada e o império da lei. Em suma, mais capitalismo! E isso não é condizente com a centralização de poder no Executivo, que acaba asfixiando o livre mercado.

Em um de seus tantos discursos, o presidente Lula disse sobre a democracia: “A alternância de poder é importante. Toda vez que um dirigente político se acha imprescindível e insubstituível, está começando a nascer um pequeno ditadorzinho dentro dele”. Na mosca. O curioso é que o autor desse alerta é um profundo admirador do mais antigo ditador da América Latina, assim como um grande camarada de Chávez, que vem tentando seguir na mesma linha. Mas cobrar coerência do presidente já seria demais. Basta aqui usar seu alerta, que é verdadeiro. Não só a alternância de poder, como a própria redução de poder concentrada no governo é fundamental para preservar a liberdade. E nenhum governante deveria permanecer no governo por três mandatos, tempo suficiente para aparelhar a máquina estatal de forma quase irreversível.

Se o presidente Uribe vem fazendo um governo razoável, com elevada aprovação popular, que ele tente fazer um sucessor. Lembrando sempre, naturalmente, que democracia não deve ser uma simples ditadura da maioria. Aprovação popular não é garantia de boa gestão, e basta citar que Hitler teve amplo apoio do povo alemão. Dito isso, o passo de Uribe em direção ao terceiro mandato deve ser repudiado por todos os defensores da liberdade. Fazer vista grossa apenas porque Uribe não é membro do Foro de São Paulo é fazer o jogo da esquerda, ou seja, achar que os fins justificam os meios. Uribe não deve ser candidato novamente. Terceiro mandato é coisa de “ditadorzinho”, nisso o presidente Lula está certo!

RELACIONADOS

Deixe um comentário

1 comment

  1. O sujeito da esquina

    ” Lembrando sempre, naturalmente, que democracia não deve ser uma simples ditadura da maioria. Aprovação popular não é garantia de boa gestão ”

    Só quando convém a quem está escrevendo. Ê laiá…
    Que ginástica mental hein? Os liberais estão orgulhosos de seu duplipensar.
    Engraçado, tem um presidente de república por aí – que apesar das pataquadas na área econômica – tem amplo apoio da população e nem por isso vai tentar 3º mandato (duplipensado pela imprensa liberal como “nova reeleição).
    Mas tudo bem, é odiado pelos liberais então ele é pior que o democrático Uribe.