Em Junho de 1985, Hannes Gissurarson estava em Oxford, escrevendo sua tese de doutorado sobre Friedrich von Hayek, quando soube por dr. John Gray que Hayek, que morava em Freiburg (Alemanha), visitaria Londres. Hannes teve a idéia de escrever à Hayek e convidá-lo para um jantar com alguns estudantes, convite que foi aceito. Os estudantes tinham interesse especial no trabalho de Hayek, mas curtos em recursos, solicitaram e conseguiram ajuda de cem dólares com Leonard Liggio. E lá foram de trem para Londres cinco estudantes, três indo direto para o Ritz Hotel, onde foi o jantar e dois indo buscar Hayek no Reform Club, em Pall Mall, onde Hayek sempre ficava. Além de Hannes, hoje professor de teoria política na Universidade da Islândia, foram ao jantar Chandra Kukathas (University of Utah), Andrew Melnik (University of Missouri), Stephan Macedo, que era de Princeton e nosso conhecido Emilio Pacheco, hoje no Liberty Fund.

Hayek, que gostava de ser chamado de professor, já tinha completado 86 anos, mas de posse de enorme vigor mental e apresentou-se com grande ânimo. Falou de comida e bebeu um Burgundy. Era apreciador de vinhos franceses e admirava a cozinha japonesa mais pela sua apresentação do que pelo seu paladar. Discorreu sobre suas diferenças metodológicas com Friedmann e (menor) com Stigler, mas comentou que as diferenças que os jovens economistas viam entre Viena e Chicago eram muito exageradas. Falou sobre suas impressões dos quatro presidentes americanos que encontrara: Calvin Coolidge (Hayek fora um Rockfeller Fellow), Herbert Hoover, John Kennedy e Ronald Reagan. Mencionou que Reagan era subestimado nos seus conhecimentos, ao contrário de Kennedy, este sim, de comportamento mais superficial, como se estivesse interpretando. Expressou-se de forma favorável com relação ao papa João Paulo II assim como por Margareth Thatcher, que convidou-o para um jantar em Downing Street nº 10 em 1979 e desarmou-o ao cumprimentá-lo, ainda na entrada com a frase: “Professor Hayek, eu sei que vais dizer-me que precisamos fazer muito mais e o senhor está correto”

Por indicação de Chandra, Hannes pediu ao conjunto musical de três pessoas que atuava entre as mesas, que tocassem a canção “Wien, du Stadt meiner Träume” (Viena, cidade de meus sonhos). Quando Hayek ouviu a música, abriu um sorriso e cantou em alemão, em tom suave. Foi para os presentes, um momento memorável. No final do jantar, fez um apelo aos jovens estudantes: “Por favor, não se tornem hayekianos, pois cheguei à conclusão que os keynesianos são muito piores que Keynes e os marxistas bem piores que Marx”. Puro blague, pois Hayek adorava seus estudantes.

Esta crônica deliciosa, que me foi relatada por Hannes, voltou-me à mente ao ler o livro organizado por Cândido Prunes sobre as três visitas de Friedrich von Hayek ao Brasil, entre 1977 e 1981, todas elas patrocinadas por Henry Maksoud e sua editora Visão. (Hayek no Brasil – Instituto Liberal – Dezembro/2006 – 309 páginas). Esta coleção de conferências, ensaios, artigos e entrevistas é também uma coletânea de crônicas deliciosas sobre Hayek nos trópicos e confirma o testemunho de todos que conviveram com Hayek: além do perfeito professor, era ele pessoa de humor fino e de enorme elegância no trato pessoal. Tratava estudantes e presidentes com a mesma fidalguia. Não alterava a voz e não se furtava ao debate. Ouviu de forma atenta e respondeu às mesmas perguntas milhares de vezes, mas era um polemista culto e tenaz, resultado de suas convicções coerentes e sua mente clara. Hayek incorporou a regra de ouro de Ortega y Gasset, para quem “a claridade é a gentileza dos filósofos”. A clareza da obra de Hayek, além de refletir a clareza do seu pensamento, é também uma gentileza com todos nós.

A primeira coisa que o trabalho de Cândido Prunes nos mostra é que continuamos “travados” também intelectualmente e Hayek continua mais atual do que nunca. Passagens originais do livro são a divertida classificação que Hayek faz de conhecidos e históricos personagens entre “esquerda”, “direita” e “muddle-headeds”, respondendo às indagações de Henry Maksoud. As entrevistas são também divertidas. A minha preferida foi com a revista Veja pelo seu momento (19/12/1979). O anti-marxismo de Hayek sempre fundiu a cuca da esquerda latino-americana. Ele, que era favorável à redes de proteção social, já explicara que os conservadores eram também “muddle-headeds” e lamentava que alguns libertários americanos se auto-denominassem “conservadores”. Mas o repórter classificou Hayek como um “monumento da direita” e não compreendeu totalmente a tirada de Hayek (Sou realmente surdo do ouvido esquerdo), pois Hayek perdera a audição do ouvido esquerdo numa explosão na primeira guerra.O repórter perguntou como solucionar o problema da inflação. Hayek respondeu: “você quer saber a saída política ou inteligente? Inteligente é estancar a inflação cortando o excesso de dinheiro, mas o preço é caro. A estabilização leva a um período de desemprego agudo, uma redução no nível de satisfação. Por isso nenhum governo tenta. Mas se os políticos atuais não conseguirem destruir o mundo nos próximos vinte anos, há uma nova geração com melhores idéias capaz de acertar os ponteiros”

Hayek se enganou, era a geração dele que começaria a acertar os ponteiros. O mês de dezembro de 1979 é considerado o mês da virada, o momento que a contra-revolução de Chicago e Viena chegou ao FED. Paul Volcker tinha tomado posse em Agosto de 1979. Ele tinha estudado na London School, conhecia muito bem as escolas Austríaca e Chicago e também tinha estudado em Harvard. Volcker também era um veterano em governos, estava em Camp David quando Nixon decidiu cortar a paridade fixa entre o dólar e o ouro e os câmbios das moedas começaram a flutuar. Ele esteve na linha de fogo durante toda a década de 70 e identificou que o momento tinha chegado e os americanos estavam dispostos a pagar o preço para “matar o dragão da inflação” 1. De um spread negativo entre IPC e FED Funds de 4% aa em 1979, chegou-se a um spread positivo de até 15% aa em 1982. A recessão foi grande mas a inflação, que chegou a ter piques de 21% aa, desabou para 3,8% aa em 1982. Desde então, os EUA crescem sem inflação e sem parar e o mundo jamais foi o mesmo. Os papos furados sobre inflação sumiram do mundo, mas ainda resistiram no Brasil, onde continuaríamos a procurar saídas políticas. Em 1991, num encontro de economistas em Florianópolis, alguém perguntou à Robert Lucas Jr. sobre políticas anti-inflacionárias. Ele olhou com enfado, mostrando que julgava a discussão sobre inflação algo menor, assunto superado. “Eu não me preocupo mais com inflação”, respondeu. “Agora só quero pesquisar sobre desenvolvimento”. No Brasil, demoramos 20 anos para acompanhamos o mundo no quesito inflação, mas Hayek ainda pode ser testemunha ocular de mudanças espetaculares. No fim da década de 80, a URSS e o muro de Berlim desabaram e o marxismo, na expressão de Karl Popper , “sumiu num buraco negro intelectual”. Em 1991, Hayek escreveu à Edward Crane, presidente do Cato: “Eu nunca imaginei viver esta experiência”.

Hayek foi um “Homem Universal” da melhor tradição quinhentista. Economista de formação, foi um criativo, talentoso e completo pesquisador e descobridor, que o tempo consolidou como um dos mais importantes cientistas políticos do século XX. É impressionante o impacto em política deste perfeito professor, apesar de somente interessado em idéias. O Caminho da Servidão, sua obra mais conhecida, publicada em 1944 e dirigida a um público não-acadêmico usando a fórmula dos socialistas fabianos que impressionaram Hayek na juventude, foi uma advertência aos perigos que as novas idéias do pós segunda guerra significavam para as sociedades abertas. Anthony Fisher, empresário que queria ser político, foi aconselhado por Hayek a trabalhar no campo da idéias e daí surgiu o Institute of Economic Affairs, fundado em 1955, que iniciou uma nova concepção de institutos de análise de políticas públicas. As idéias de Hayek atingiram em cheio também o Leste Europeu como mostra Juliana Pilon, em artigo no Wall Street Journal (18/11/91), nas entrevistas com Tomas Jerek e Vaclav Klaus (então Tchecoslováquia), Janusz Lewandoski e Moroslav Dzelski (Polônia), Jozsef Szajer e Miklos Tamas (Hugria), Oganian Pishev (Bulgária) e Mircea Cosea e Daniel Daianu (Romênia). Donald Stewart, que assistiu algumas conferências de Hayek no Brasil, fundou o Instituto Liberal do Rio de Janeiro em 1983. Gary Becker considera o artigo de 1945, The Use of Knowledge in Society, o mais importante texto que leu em toda a sua vida. Friedman escreveu que o trabalho de Hayek em Economia, Historia, Sociologia, Ciência Política, Direito ou mesmo Psicologia é secundário à sua enorme influência no fortalecimento dos fundamentos morais e intelectuais da sociedade livre. Douglass North, em seu último livro (Understanding the Process of Economic Change) menciona que a profissão econômica não conseguiu escapar da premissa da racionalidade neoclássica, com pouquíssimas exceções, a mais notável delas sendo Hayek. E alguns intrigantes argumentos “austríacos” da encíclica Centesimus Annus2 talvez sejam mais intrigantes ainda com a informação que o papa João Paulo II recebeu Hayek para diversas e longas conversas no Vaticano. Hayek era agnóstico, mas simpático à Igreja e aos seus ensinamentos, que julgava “verdades simbólicas” e muito úteis para o convívio social. Talvez um exemplo desta percepção de Hayek esteja na explicitação das teologias cristãs e expressamente da Católica Romana em que, sendo o homem cópia do Criador, é também criador e portanto, criado para a liberdade.

Este intelectual por excelência, que durante todos os dias da sua vida acadêmica passou pelo menos uma hora por dia dentro de um biblioteca, de onde sempre saia carregado de livros e que era chamado por Keynes de “a máquina lógica”, talvez tenha recebido de Karl Popper a sua maior homenagem. Ao analisar o colapso da União Soviética, Popper dá o devido crédito ao “teorema” de Mises sobre a impossibilidade do cálculo econômico no socialismo. Mas Popper considera o “teorema da servidão” de Hayek ainda mais importante. O caminho da servidão leva ao desaparecimento do livre mercado de idéias. Sem um mercado de idéias, a habilidade de pensar chega ao fim. Então os tiranos começam a acreditar em suas mentiras e se tornam, no final, escravos delas. E desaparecem.

O livro “Hayek no Brasil” mostra um episódio importante da história das idéias no Brasil. Mas é também um testemunho da enorme, solitária e pioneira contribuição de Henry Maksoud para o nosso entendimento das vantagens da sociedade livre. A ele e a Cândido Prunes, que agora nos brinda com esta coletânea, a nossa gratidão perene.

Notas:

(1) Trechos da entrevista de Paul Volker em 26/09/2000 (PBS Commanding Heights)

“But I think there was a body of support in the country, right through this period. Obviously if there wasn’t, we wouldn’t have survived. …[Inflation] came to be considered part of Keynesian doctrine, although I don’t think it was Keynes himself — there’s some debate about this — [who said] that a little bit of inflation was a good thing. I was strongly lectured on that. I remember one particularly, one of my professors at Harvard [lecturing] about [how] in the postwar period people were worried about sluggishness and that a little bit of inflation is a good thing. Of course, what happens then [is] you get a little bit of inflation, and then you need a little more because it props up the economy. People get used to it, and it loses its effectiveness. Like an antibiotic, you need a new one; [then] you need a new one plus. That was a world… I was not part of. I was in the Federal Reserve, Treasury, a conservative guy who’s always against inflation. The general tenor of the times was inflation was the least of evils, if it’s an evil at all. What changed drastically in the 1980s and running through today is the presumption that inflation is bad [and that] the primary job of a central bank is to prevent inflation. That’s taken for granted. The great ideology these days is that the central banks ought to be independent; they ought to have an inflation target, and an inflation target ought to be close to zero. That’s a very different environment then the ’50s and ’60s and into the ’70s.”

(2) Trechos da Encíclica Centesimus Annus – 1991

“Não é lícito do ponto de vista ético nem praticável menosprezar a natureza do homem que está feito para a liberdade. Na sociedade onde a sua organização reduz arbitrariamente ou até suprime a esfera em que a liberdade legitimamente se exerce, o resultado é que a vida social progressivamente se desorganiza e definha. Além disso, o homem, criado para a liberdade, leva em si a ferida do pecado original, que continuamente o atrai para o mal e o torna necessitado de redenção. Esta doutrina é não só parte integrante da Revelação cristã, mas tem também um grande valor hermenêutico, enquanto ajuda a compreender a realidade humana. O homem tende para o bem, mas é igualmente capaz do mal; pode transcender o seu interesse imediato, e contudo permanecer ligado a ele. A ordem social será tanto mais sólida, quanto mais tiver em conta este fato e não contrapuser o interesse pessoal ao da sociedade no seu todo, mas procurar modos para a sua coordenação frutuosa. Com efeito, onde o interesse individual é violentamente suprimido, acaba substituído por um pesado sistema de controle burocrático, que esteriliza as fontes da iniciativa e criatividade. Quando os homens julgam possuir o segredo de uma organização social perfeita que torne o mal impossível, consideram também poder usar todos os meios, inclusive a violência e a mentira, para a realizar. A política torna-se então uma «religião secular», que se ilude de poder construir o Paraíso neste mundo”.

”Estas considerações gerais refletem-se também no papel do Estado no setor da economia. A atividade econômica, em particular a da economia de mercado, não se pode realizar num vazio institucional, jurídico e político. Pelo contrário, supõe segurança no referente às garantias da liberdade individual e da propriedade, além de uma moeda estável e serviços públicos eficientes. A principal tarefa do Estado é, portanto, a de garantir esta segurança, de modo que quem trabalha e produz possa gozar dos frutos do próprio trabalho e, conseqüentemente, se sinta estimulado a cumpri-lo com eficiência e honestidade. A falta de segurança, acompanhada pela corrupção dos poderes públicos e pela difusão de fontes impróprias de enriquecimento e de lucros fáceis fundados em atividades ilegais ou puramente especulativas, é um dos obstáculos principais ao desenvolvimento e à ordem econômica”.

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