O poder das balzaquianas

O detalhe pode parecer tênue no jogo eleitoral, mas fornece pistas para o deslocamento das peças no tabuleiro do pleito. Se alguém, de maneira abrupta, pinçar do colete a informação de que as balzaquianas poderão decidir o destino da campanha presidencial deste ano, não será levado a sério ou, com certa boa vontade da audiência, passará por questionamentos. Pois bem, as mulheres, especialmente as de 35 anos ou um pouco mais, consagradas na literatura por Honoré de Balzac, por meio do clássico A Mulher de 30 anos, constituem hoje 30,3% do eleitorado brasileiro. Se agregarmos ao número outra ordem de grandeza – o fato de que as mulheres superam os homens no conjunto eleitoral em cerca de 5 milhões de votos (68 milhões a 63 milhões) -, reforçamos a credibilidade da hipótese, ainda sob o endosso de quadros técnicos do IBGE. Maduras, realistas e vividas, as balzaquianas – termo não mais pejorativo -, com senso crítico, firmeza e capacidade realizadora, serão o passaporte para o ingresso dos candidatos no coração e na mente do eleitor.

O detalhe mostra, no entorno, um conjunto de variáveis cujo alcance certamente será absorvido pelas estratégias das campanhas. A começar pelo rearranjo da pirâmide social. O conjunto eleitoral brasileiro atravessa um processo de envelhecimento e feminidade. As estatísticas mostram que as mulheres apresentam menores taxas de mortalidade, vivendo mais que os homens. Na esteira da constatação emerge a indicação de que as mulheres decidirão o destino dos candidatos.

Não se trata apenas de numerologia, mas de evidência histórica. Veja-se o caso de Lula. Ganhou duas eleições – 2002 e 2006 – no segundo turno. Mas a vitória poderia ter sido já no primeiro turno, tivesse obtido votação expressiva das mulheres. No primeiro, disputando com Serra, teve 10% a menos de votos das mulheres e, no segundo, enfrentando Alckmin, registrou quatro pontos a menos. Aliás, Luiz Inácio alcançou desempenho menor entre o eleitorado feminino em todos os cinco pleitos disputados. O PT sempre teve dificuldades, ao longo das campanhas, em conquistar as eleitoras, situação que se repete na performance de Serra e Dilma junto a esse eleitorado: 42% a 25%, segundo pesquisa Datafolha, e 34% a 27%, na pontuação do Vox Populi. É bem verdade que a distância se estreita nos bolsões atendidos por programas assistencialistas, particularmente no Nordeste, onde se verifica a maior aprovação ao governo Lula.

Existiria explicação para a preferência das mulheres por um candidato do sexo masculino? A causa mais plausível aponta para o caráter conservador do eleitorado. Por mais que se registrem extraordinários avanços da condição feminina, com a criação de instrumentos efetivos em sua defesa – Secretaria Especial de Políticas para a Mulher, Lei Maria da Penha, delegacias, varas e juizados especiais da mulher -, a mulher ainda é vítima de muita discriminação. O discurso por igualdade de direitos tem sido forte, mas a ação é tênue.

À índole conservadora da sociedade pode ser debitado também o fato de as mulheres terem 30% a mais de horas em educação e 27% a menos de salários em relação aos homens. O conservadorismo se espraia pela esfera política. Em 2008 o Brasil despontava em penúltimo lugar no ranking da participação feminina nos Parlamentos da América do Sul. Por aqui, tem sido difícil preencher a cota de 30% de vagas destinadas às mulheres. Mesmo assim, vale registrar que, em 2006, Heloísa Helena obteve 6,5 milhões de votos no pleito presidencial. E, este ano, pela primeira vez na história, duas candidatas de porte e visibilidade entrarão na grande corrida.

Ao lado do conservadorismo, responsável pela distância entre os gêneros no âmbito do trabalho, a mulher agrega atributos particulares, como acuidade no exame das situações, rigor nas escolhas e observação atenta de fatos. E, sobretudo, atenção para os detalhes. Não quer perder o voto. Por isso, tende a deixar a escolha para os momentos finais. O que ela enxergaria, por exemplo, em Serra ou em Dilma? Possivelmente estes traços: o ex-governador como um médico vestido de branco, botando remédio genérico na caixinha de socorro. O trabalho do ex-ministro da Saúde do presidente Fernando Henrique continua a ser bem lembrado pelas donas de casa, zeladoras da saúde da família. Da ex-ministra da Casa Civil a identidade ainda é um ente difuso, repartindo-se entre matéria energética, canteiros de obras espalhados pelo País, jeito durão e “Dilma do Chefe” (com a fonética nordestina se confundindo com Rousseff). Ou seja, o economista paulista, de expressão técnica, José Serra se humaniza e vira o chefão do clã, e a também economista mineira/gaúcha tem sua humanidade encostada no ombro do paizão do País, Luiz Inácio.

Nem por isso se pode afirmar que o sufrágio feminino convergirá totalmente na direção do perfil masculino. A possibilidade estará condicionada à geografia eleitoral. No Sudeste, por exemplo, pesquisas dão conta de eleitoras mais simpáticas à Serra. Já na região nordestina, a gratidão deverá encher as urnas de Dilma com votos de mulheres.

Convém relembrar que nenhuma eleição é igual às outras. Personagens (incluindo chefes políticos), estruturas partidárias, discursos e circunstâncias terão sua relativa influência nos conjuntos eleitorais. Ademais, o pleito contará com um diferencial de peso: é a primeira eleição em 20 anos sem Lula como candidato. O fim do ciclo lulista propiciará um olhar atento sobre os atores. Por parte do eleitorado feminino esse olhar será ainda mais seletivo. Donde se extrai a inferência final: as mulheres, principalmente as balzaquianas, darão as boas vindas a Serra ou a Dilma para uma estadia de quatro ou oito anos no Planalto ou um bom tempo de férias na planície.

(“O Estado de S. Paulo” – 02/05/2010)

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