Ninguém se surpreendeu com a escolha da francesa Christine Lagarde para a sucessão do francês Dominique Strauss-Kahn no Fundo Monetário Internacional (FMI). A pedra estava cantada desde a renúncia do antigo diretor-gerente, em maio, quando Angela Merkel, a chanceler alemã, pronunciou uma longa senha: “Claro que as nações em desenvolvimento têm o direito de ocupar a médio prazo o posto de direção do FMI ou a chefia do Banco Mundial. Mas na atual situação, de sérios problemas com o euro nos quais o FMI está fortemente envolvido, existem muitos motivos favoráveis à apresentação de uma candidatura europeia”. Havia ali, sob o manto de um argumento virado do avesso, uma ameaça tão sutil quanto eficaz.

No terreno da lógica, o raciocínio de Angela Merkel conduziria à rejeição de qualquer candidatura europeia ao cargo vacante. A zona do euro converteu-se na principal tomadora de empréstimos do FMI. Não há justificativa razoável para colocar um representante do maior bloco de devedores à testa da instituição credora. Obviamente, a ninguém ocorreu sugerir um diretor-gerente asiático em 1997, um russo em 1998, um brasileiro em 1999 ou um argentino em 2000… Mas Angela Merkel sabia que o valor de sua sentença estava incrustado em duas palavras ameaçadoras: Banco Mundial.

O americano Robert Zoellick completa seu mandato de presidente do Banco Mundial só no ano que vem. Desde a Conferência de Bretton Woods, em 1944, um acerto informal reserva à Europa a direção do FMI e aos EUA o posto correspondente no Banco Mundial. Ao introduzir na agenda o tema intempestivo, Angela Merkel enviou uma mensagem a Barack Obama: ela estava dizendo que a União Europeia (UE) só apoiaria a futura candidatura americana em troca do voto dos EUA para Christine Lagarde.

A barganha de partilha de poder fazia sentido em 1944. Assim como o Conselho de Segurança da ONU reuniu o clube das potências militares do pós-guerra, as instituições de Bretton Woods expressaram, no plano financeiro, a aliança EUA-Europa Ocidental que pouco mais tarde daria origem à Otan. Hoje, quando o G-7 já cedeu suas funções principais ao G-20, o acordo de cavalheiros aparece como uma relíquia – tanto que na hora da entronização de Strauss-Kahn no FMI altas autoridades europeias se apressaram a dizer que ele seria, no horizonte previsível, o último europeu no comando da instituição. Não por acaso, o argumento de Angela Merkel foi qualificado como “espúrio” pelo jornal Business Standard, da Índia, enquanto o Khaleej Times, de Dubai, denunciava o processo seletivo do FMI como uma “forma de apartheid” e um colunista do Straits Times, de Cingapura, sentia um “cheiro de colonialismo” na ofensiva europeia.

Apesar das alterações recentes nos direitos de voto no FMI, UE e EUA conservam, juntos, o controle decisório. Os EUA não esconderam o desconforto com a candidatura de Christine Lagarde e o secretário do Tesouro, Tim Geithner, insinuou que seria preferível um “processo aberto”, forma diplomática de sugerir um recuo europeu. Entenderam, contudo, a pouco cifrada mensagem de Angela Merkel e se curvaram ao imperativo geopolítico. A presidência do Banco Mundial é uma âncora da credibilidade do dólar, num tempo em que a “moeda do mundo” sofre as consequências de uma trajetória insustentável de endividamento americano. Além disso, o Banco Mundial aparece como uma ferramenta insubstituível para a estratégia dos EUA destinada a exercer influência sobre os regimes que emanam da convulsão revolucionária no mundo árabe.

Poder não se concede: deve ser arrancado de seus detentores. No fim das contas, o triunfo de Christine Lagarde não derivou de um confronto épico entre as grandes potências e o resto do mundo, mas da virtual inexistência de uma alternativa. Articulados na UE e habituados a atuar em conjunto no cenário mundial, os europeus cerraram fileiras atrás da candidatura francesa. Já os Brics evidenciaram, pela incapacidade de apresentar uma candidatura comum, a paralisante disparidade de seus interesses nacionais. No vácuo de liderança emergiu a solitária candidatura do mexicano Agustín Carstens, uma figura a tal ponto associada às posições dos EUA que não obteve sequer um apoio sólido dos países latino-americanos. A Rússia votou em Christine Lagarde. O Brasil também votou na candidata europeia, desistindo até de explorar alguma hipótese alternativa enquanto celebrava a vitória secundária de José Graziano na FAO.

Christine Lagarde tem todos os atributos pessoais necessários para dirigir o FMI, menos a ascendência política de Strauss-Kahn, que reunia qualidades combinadas de economista e estadista, indisponíveis no mercado. A nova diretora-gerente, porém, é prisioneira de uma armadilha fatal. Como ministra das Finanças de Nicolas Sarkozy, personificou a estratégia conduzida pela UE diante da crise do euro, destacando-se entre os arautos da obstinada rejeição francesa à hipótese de reestruturação da dívida grega. Agora, à frente do FMI, tem a missão impossível de exercer uma supervisão independente dos planos de resgate dos países endividados da zona do euro.

“Meu objetivo primordial será fazer com que nossa instituição continue a servir à totalidade de seus integrantes”, declarou Christine Lagarde no momento de seu triunfo. É um objetivo tão inalcançável quanto o pagamento da dívida grega. Sob Christine Lagarde, o FMI será visto como um joguete nas mãos de uma Europa engajada na salvação do euro: um Fundo Monetário Europeu com outro nome. A captura da instituição pela UE revela, mais ainda que a paralisia da reforma do Conselho de Segurança, as enormes dificuldades de reconfiguração, em tempos de paz, da ordem internacional emanada da guerra geral. Na Ásia, em especial na China, rumina-se a ideia da criação de um Fundo Monetário Asiático. Seria, juntamente com o declínio do dólar, um passo perigoso rumo à fragmentação da arquitetura financeira global.

Fonte: O Estado de S. Paulo, 07/07/2011

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