O ponto cego

É longa a narrativa que coloca o brasileiro como um oprimido. Oprimido pela metrópole, pelas potências coloniais, pelos países imperialistas que sugam suas veias abertas. O nortista, o nordestino, o sulista, cada qual é um sofredor a sua maneira, ora pela seca, ora pela enxurrada. Quando não é a natureza inclemente que o castiga, são as elites e classes dominantes. Há até uma obra consagrada que trata justamente do tema, que atende pelo nome de “Pedagogia do oprimido”.

Terá Deus se esquecido do Brasil? O novo capítulo desta saga é o brasileiro oprimido por sua classe política, a qual, aliada a empresários gananciosos, é responsável pelo infortúnio de 200 milhões de brasileiros. Como em toda a longa narrativa, há também nesta algo de verdadeiro, mas também muita falácia. Admira a falta de autocrítica sobre esse sentimento de eterna vitimização, como se fôssemos sempre presas na mão de entes superiores a nós mesmos e fora de nossos controles. E onde entra nossa participação nisso tudo? Há um ponto cego aqui. Nos tornamos oprimidos porque colocamos pessoas erradas para cuidar de nossas vidas ou por não nos sentirmos capazes é que precisamos de pessoas para tutelar nossos destinos? Não será exatamente nesse sentimento de inferioridade que reside a gênese de grande parte dos problemas? Por que somos eternamente dependentes dessa cômoda posição de vítimas, que nos garante a prerrogativa de ficar reclamando daqueles que deveriam zelar por nossos interesses, mas que nos cobra o preço de sermos permanentemente atraiçoados?

Somos vítimas de nossa boa-fé ou de nossa cumplicidade com aqueles que elegemos para fazer o que nós mesmos deveríamos fazer, isto é, cuidar de nossos interesses? Por que não conseguimos enxergar e assumir nossa participação ativa e responsabilidade na construção de um sistema que nos transforma em vítimas perfeitas a todo instante? Se não conseguimos enxergar esse ponto cego, desfazendo o enorme aparato estatal que foi criado a pretexto de nos proteger, continuaremos de posse de um poderoso, porém estéril discurso de exteriorização da culpa e autovitimização. Continuaremos eternamente gozando da cômoda, porém desgraçada posição de “homem oprimido”.

Fonte: “Zero hora”, 9 de junho de 2017.

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