Depois dos 80 anos bem vividos e sucedidos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, a quem eu envio meus parabéns pela passagem do seu aniversário; e da passagem definitiva do igualmente ex-presidente e senador Itamar Franco, a quem eu rendo modesta homenagem pelo que fez pelo Brasil, vale especular sobre o que é ser um “ex”.

Sobre o que significa deixar de ter sido um protagonista de um cargo ou papel social. Todos, diga-se logo, somos “ex” de alguma coisa ou pessoa. Por isso, o prefixo tem um lado ambíguo quando não claramente negativo, sobretudo em sociedades como a nossa, na qual a regra é sempre acumular poder (sobretudo o poder público) e, assim, multiplicar nosso patrimônio (real ou simbólico), porque os rios correm para o mar e quem é rei jamais perde a majestade. Nosso ideal é ficar por cima da carne-seca; isto é, por cima das leis. De todas as leis!

Hoje, temos uma clareza muito maior das diferenciações e das contradições entre atores e papéis, sobretudo os que se realizam por meio de cargos públicos. Mas chegar a essas distinções entre atores e papéis não é fácil num sistema que ainda não conseguiu desmistificar-se e até hoje deseja ter ídolos, e resiste a abandonar velhas hierarquias e utopias políticas ultrapassadas. Ainda somos o país do “maior” disso ou daquilo e do “número 1” nisso ou naquilo. Amamos as hierarquias que nos distinguem uns dos outros e nos situam como privilegiados, mas, simultaneamente, queremos também a igualdade e continuamos a ter o coração do lado dos pobres e dos oprimidos. As duas mãos, como o papel e o ator, ainda não se encontraram.

No fundo, distinguir pessoas de papéis é poder ver com clareza os sacrifícios impostos pelos cargos, pois se eles são do povo, é a coletividade quem os controla. Mas não é fácil fazer isso sem perder de vista o modo pelo qual os atores deles se apropriam. Pois se o papel coage, obrigando a enxergar deveres, os atores que neles entram quase sempre só querem ver os seus privilégios. Esse encontro do papel (que não nos pertence) e do ator que cada um de nós pode ser conduz à tal “ética” e ao tal “bom-senso”, tão em pauta neste Brasil que vai ficando cada vez mais igualitário.

Hoje, o mal-estar da política está justamente nessa apropriação de cargos públicos sem uma discussão apropriada dos laços que devem unir os atores aos cargos públicos (ou coletivos) que ocupam. A democracia depende dessa conta de chegar, pois os cargos são instrumentos da coletividade e não marionetes de partidos e de pessoas.

Mas não se precisa ir muito longe para ver que o diálogo entre atores que abusam do papel e o papel que precisa englobar os atores é o grande drama de todo processo democrático igualitário. Pois, o que é um caudilho ou um ditador senão um sujeito que se apossou do papel de presidente da República, violando-o quando o interpreta do ponto de vista dos seus privilégios e jamais dos seus deveres? No Brasil, a eleição ainda é um mecanismo que sanciona mais o abuso do ator no papel do que o seu contrário.

Aliás, em certos países, quem ocupa um cargo público tem a sua vida pessoal controlada. A entrada num cargo do Estado obriga a redefinir os laços com a sociedade, pois, como dizia Tom Paine em pleno século 18, a sociedade é positiva e diz sim; ao passo que o Estado é sempre controlador, disciplinado e negativo, dizendo não. Um vai na nossa direção com suas amizades e seus compadrios; o outro, porém, com seus impostos e obrigações, vai contra nós. A democracia é um cabo de guerra entre essas duas tendências. Tensão para a qual não há leis ou códigos, mas apenas bom-senso e senso de limites.

Daí o elo importante entre saber ser um “ex” quando se ocupa certos cargos. A demanda de transparência (e de consciência) entre o mundo público e o universo privado – entre a casa e a rua – é um tema complexo e delicado, mas fundamental numa sociedade que adotou o ideal da igualdade e da democracia como guia ou causa perdida. Essas causas, acrescento com Frank Capra, pelas quais vale a pena viver e lutar.

Não é preciso fazer um curso de sociologia para compreender que nos comunicamos com o mundo por meio de personagens que nos são impostos por nosso grupo social. Tomamos consciência da vida através de papéis. Primeiro, como crianças, como pessoas que pertencem a uma casa onde passamos a jovens. Em seguida, viramos pais e pessoas maduras, prontas a serem julgadas por aqueles que nos criaram ou viram crescer. Finalmente, viramos velhos com a obrigação de tudo compreender, tudo dar e segurar tudo que nos atinge. Após esse tango interminável, parecido com uma masturbação sem orgasmo, somos aposentados e – doentes ou fisicamente exaustos – morremos e viramos aquele complexo “ex” eterno que cabe aos mortos.

Não é fácil ocupar papéis exclusivos e importantes como o de presidente da República numa sociedade cujo credo oscila entre leis e pessoas como solução para seus problemas. Pois todo presidente, sendo uma pessoa e tendo o poder de legislar, tem as duas capacidades. Por isso, figuras como Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso são raras. O primeiro, porque colocou o papel acima de sua pessoa e buscou consolidar instituições em vez de seguir o caminho do populismo. Hoje ele repousa na glória de sua vida produtiva. O segundo porque revela ao País que o “ex-presidente” representa o Brasil na sua integridade de sociedade e de Estado. Como um “ex” fora do sistema de politicagem, ele faz Política com “p” maiúsculo. Pois sabe que a Presidência não é de ninguém e, assim, demonstra pelo exemplo que ela deve ser preservada de causas menores, devendo ser tão grande quanto o povo a quem deve honrar e servir.

Fonte: O Estado de S. Paulo, 06/07/2011

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