O problema não é o doutorado, são os incentivos

Recentemente, o excelente Alexandre Barros publicou algumas observações sobre os impactos dos incentivos do MEC sobre a educação superior. Em seu artigo, ele fala sobre a possibilidade de professores universitários se juntarem em uma corporação e se protegerem da competição de profissionais do setor privado com barreiras à entrada, especificamente com a exigência do título de “doutor” para o exercício da profissão. Embora concorde com vários de seus pontos, creio que é interessante pensar em algumas considerações.

Seu artigo, em resumo, argumenta que professores universitários se uniriam para impedir a entrada de profissionais renomados na universidade simplesmente pelo fato de que estes últimos não teriam cumprido os rituais do MEC, em particular o de obter alguma titulação, como a de mestre ou doutor. Dois dos exemplos utilizados pelo autor são os de Bill Gates e de Steve Jobs. Pergunta Alexandre o que aconteceria se eles perdessem o emprego e desejassem dar aulas. Ao contrário do autor, creio que eles conseguiriam um bom emprego em algum programa de MBA e, mais ainda, achariam isto melhor do que lecionar em um mestrado ou um doutorado, mas vamos em frente.

Ainda que eu concorde com o autor sobre o valor “inflado” do diploma, não sei se o fluxo de pessoas do mercado para as universidades é sinônimo de aumento de qualidade. Embora “experiência” seja algo desejável em algumas disciplinas, não se pode depender só dela. Além disso, pense no seguinte exemplo: pessoas que não souberam ganhar dinheiro no mercado e perderam seus empregos na crise atual têm — exatamente — o quê a nos ensinar em uma aula de mercados financeiros? Se o mercado funciona razoavelmente bem, é de se esperar que os mais talentosos sejam melhor alocados em postos de trabalho nos quais são mais eficientes. Dificilmente um competente especialista em finanças será demitido. Mesmo que o seja, é mais fácil que seja reabsorvido nesse mercado do que no de ensino, pois crises como a de 2008 não são permanentes.

A transferência do sujeito do mercado para o ensino também se dá em outro ponto: há quem aproveite para substituir o sinal emitido por um diploma obtido em uma faculdade de qualidade inferior com o diploma de especialização em uma de maior renome. E nem sempre isso significa maior produtividade, pois há diplomas e diplomas (veja, por exemplo, esta notícia, para os EUA).

Alexandre também cita o — sempre recomendável — Simon Schwartzman, que faz algumas críticas sobre o direcionamento da pesquisa científica. Para este último (conforme citação de Alexandre): “o professor [brasileiro] participa de um congresso ou publica um artigo numa revista que ninguém lê.” Nesse ponto do argumento é bom tomar cuidado. Lugar de artigo científico é na literatura especializada e, sim, é desejável que a mesma resulte em novos processos produtivos ou mesmo em novas instituições sociais mais favoráveis ao desenvolvimento econômico, mas nem todo artigo científico se presta a uma divulgação, digamos, ampla.

Além disso, o público interessado nas últimas contribuições teóricas da Economia não é o mesmo que deseja saber o que fazer com o dinheiro aplicado no final do mês. Pelo menos não necessariamente. Públicos diferentes desejam ler artigos com graus de detalhes técnicos distintos e o fato de se saber ler não significa que se queira ler sobre os últimos resultados das pesquisas científicas no dia-a-dia. Ensinar a ler nem sempre significa inculcar interesse científico na mente (e nos corações) das pessoas.

Certamente, como diz Alexandre, os incentivos da burocracia governamental podem distorcer os objetivos das pesquisas científicas. Recentemente o prof. Novaes, do Departamento de Economia da PUC-RJ, escreveu um artigo crítico quanto à “ênfase na quantidade em detrimento da qualidade” na produção científica de economistas e não creio que Alexandre discordaria dos pontos centrais deste artigo. As distorções na produção científica geradas por incentivos errados — criados pelo governo a partir de grupos de interesses específicos — são bem conhecidas dos economistas e há vários estudos a respeito e, sim, é verdade que há muito interesse corporativista entre professores.

Mas não se pode assumir que publicações científicas sejam, todas elas, escondidas em periódicos desconhecidos. Como já disse, são públicos-alvo distintos. Além disso, nem todo mundo que perde emprego e deseja lecionar sem ter mestrado ou doutorado sabe realmente mais do que um mestre ou doutor (e, sim, há muitos mestres e doutores mais interessados em preservarem seus feudos do que, de fato, pesquisarem). E não se engane: os salários ofertados pelas universidades nem sempre atraem gente como Bill Gates ou Steve Jobs.

Por outro lado, Alexandre está correto: o governo não ajudará a alterar esta situação se usar incentivos que coíbem a produção científica.

(Publicado em “OrdemLivre.org”)

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1 comment

  1. Bruno

    E viva o livre mercado!!!!! hehhheheeheheh