Ricardo Galuppo

O Banco Central Europeu – veja só – vai emprestar nada menos do que € 530 bilhões para ajudar 800 bancos do continente a superar a crise. É muito dinheiro. Com esses recursos, segundo o italiano Mario Draghi, presidente da instituição, os bancos poderão aumentar o crédito às empresas.

E, também, comprar títulos de governos que, nos últimos meses, enfrentam dificuldades para se financiar.

(Tais títulos, é bom lembrar, além de dar aos governos o fôlego de que necessitam para tocar a vida, renderiam bons lucros para os bancos. Afinal, os países em dificuldades foram rebaixados pelas agências de classificação de risco e isso os obriga a pagar juros maiores pelos papéis que oferecem ao mercado.)

Cerca de três anos atrás, nos momentos iniciais da crise que ainda hoje afeta a economia de boa parte do mundo, o sistema financeiro europeu utilizou os recursos que recebeu de seu Banco Central (cerca de € 490 bilhões) para quitar seus próprios compromissos.

Desta vez, o dinheiro deverá ser utilizado para recuperar a economia. Seja como for, é inevitável comparar a iniciativa europeia de socorrer os bancos com o velho, criticado e brasileiríssimo Proer.

Nos anos 1990, o programa impediu que a bancarrota se alastrasse pelo sistema financeiro nacional. Por aqui, muita gente baixou o sarrafo no Proer, que não passava, segundo essas pessoas, de uma mãozinha do governo estendida na direção de banqueiros em dificuldades.

O problema é que a quebra de um banco não atinge apenas seus acionistas e funcionários.

Ela repercute, também, sobre milhares de pessoas com recursos aplicados naquela instituição – que podem de uma hora para outra se ver privadas das poupanças de uma vida inteira.

Para economias debilitadas, como estão neste momento as de muitos e importantes países europeus, pode-se dizer que a ameaça nº 1, a de uma quebradeira generalizada de bancos, já ficou para trás.

A ameaça nº 2, a do prolongamento da estagnação, motivado pela escassez de recursos para financiar o reerguimento do setor privado.

Num cenário como o europeu, onde a crise exige cortes crescentes nos gastos públicos, a solução de médio prazo para a crise passa, obrigatoriamente, pelo fortalecimento do mercado e pelo estímulo a empresas capazes de gerar empregos. Sem os bancos para emprestar dinheiro, isso se torna mais difícil.

A decisão do Banco Central Europeu nada tem de original – mesmo que, para evitar os críticos de plantão, nos esquivemos de compará-la com o Proer. Depois da quebra do Lehman Brothers, em 2008, o Fed, banco central americano, resolveu se mexer e impedir que outras instituições fossem à lona.

Abriu os cofres e liberou para o Citi, o BofA e outras instituições do país uma ajuda generosa, que girou em torno de US$ 1 trilhão. Se não tivesse agido assim num momento em que tudo parecia ir de mal a pior na maior economia do mundo, talvez o Fed não tivesse condição de anunciar, como fez ontem, a revisão do crescimento no último trimestre do ano passado.

Esperava-se uma expansão de 2,7% – e o número ficou em 3%. Ou seja: para uma economia em dificuldades, dinheiro bem gasto é o melhor oxigênio.

Fonte: Brasil Econômico, 01/03/2012

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