Muito se fala sobre esta incômoda patologia representada pela abundância de dólares. Muitos acham que não se trata de doença, holandesa ou tropical, e que o problema, no fundo, é velho e conhecido: a falta de importação. Tem circulado a provocativa idéia de uma rebaixa geral e temporária de impedimentos à importação, não propriamente para promover um festival, mas para dar credibilidade a um movimento, este sim fundamental, na direção de mais abertura em caráter permanente.

O choque temporário, ou a “promoção”, não é essencial. Apenas serve para apressar o relógio ou para sacudir a tendência até agora inexorável do câmbio para o subsolo. Não é preciso aqui incomodar o leitor com os detalhes. O diabo, nesse caso, está, principalmente, no espírito da coisa – a idéia de tornar o Brasil uma economia efetivamente mais aberta.

A importação é um fenômeno que desperta as mais ambíguas sensações: um privilégio, um luxo desnecessário, um supérfluo prejudicial à indústria nacional. A carga negativa associada ao importado é a mesma associada à idéia de “dependência” e inversamente proporcional às mensagens subliminares positivas envolvidas em conceitos como “auto-suficiência” e “soberania”. Nada poderia ser mais antigo.

No mundo de hoje, está bem quem apostou em “interdependência” e “produção internacional” e abandonou a noção de “auto-suficiência”. Que o digam a China e a Índia; que o maldigam a Coréia do Norte. Mesmo a Albânia abjurou a cartilha de isolamento que a tornou um pequeno museu, ou um brechó da década de 1930.

Aqui no Brasil, enquanto isso, cresce a noção de que não devemos “gastar a bonança de divisas” em consumo, mas em investimento. Sim, prezado leitor, estamos entrando no perigoso terreno do senso comum, de onde sempre saem as maiores trapalhadas em matéria econômica.

Tão obsoleta quanto a idéia de “auto-suficiência” é a de um planejamento com tonalidades meio soviéticas, segundo o qual a importação deve se concentrar em “BK”. Os Comissários do Povo falam um idioma muito deles: “BK” designa “bens de capital”, as populares máquinas, e o leitor que pergunte a um desses senhores se um computador é “BK” ou “BC”, bem de consumo. O “BCI” (bem de consumo importado) há anos é tomado como inimigo do povo. Em muitas lojas, o destaque dado à seção de importados merece olhares de reprovação como os destinados aos cantinhos onde ficam os filmes para adultos. Em contraste, o “BK” importado é do bem e serve ao desenvolvimento, especialmente quando não tem “similar nacional”. Mais velho que isso só um “plano qüinqüenal”.

Descendentes da esquerda festiva, os novos defensores do protecionismo se alimentam de massas, bacalhau e vinhos importados

E o debate continua, geralmente nos restaurantes, onde muito se fala de assuntos de comércio exterior. Talvez porque o tema seja polêmico, e os jornalistas gostam de levar suas fontes para almoçar boas refeições, sempre debitadas à pessoa jurídica. Bem tratada, a “fonte” pode ser que faça inconfidências, mas não se sabe se, ao contrário, dirá apenas o que o jornalista quer ouvir. O fato é que, nos restaurantes caros nas alamedas paulistas mais elegantes, as massas italianas, os vinhos franceses e salmões chilenos têm sido espectadores constrangidos de discursos patéticos contra o uso das divisas nacionais em consumo supérfluo. Tínhamos, antigamente, a “esquerda festiva”; hoje, um de seus descendentes mais conspícuos é o “protecionista gourmet”.

Um protecionista bem constituído, cidadão do mundo, não almoça um feijãozinho com farofa durante um debate sobre a abertura; será no mínimo um bacalhau da Noruega com azeite português, importados mais experientes, acostumados com as restrições brasileiras e, principalmente, sem “similar”. O mesmo vale, é claro, para o “grand finale”, um charutinho cubano.

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