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Após os excessos da década passada e a crise global de 2007/2008, a economia mundial tem enfrentado crises em sequência. Os problemas na Europa não terminaram e já vislumbramos a próxima: pânico com o possível impacto da forte contração fiscal contratada nos EUA. É o já denominado “abismo fiscal” (fiscal cliff).

Diversos incentivos fiscais do passado — cortes de impostos, benefícios de bem-estar social — terminam até 31 de dezembro deste ano. E novos cortes de gastos serão ativados automaticamente no ano que vem, se não houver acordo político para reduzir o déficit ao longo da próxima década. Juntos, esses ajustes fiscais equivalem a um impacto de 3,6% do Produto Interno Bruto (PIB) e têm potencial para provocar uma recessão nos EUA e no mundo, por consequência.

No pior caso, se todo o abismo fiscal se materializar, os EUA podem voltar à recessão, com o PIB se contraindo 0,3% no ano que vem. Após a crise do subprime e do Lehman Brothers, houve a necessidade de reduzir o excesso
de endividamento, acumulado graças a gastos excessivos, fruto da falsa percepção de maior riqueza. E, de fato, o setor privado — tanto as empresas quanto os indivíduos — avançou bastante nesse quesito.

O problema é que simultaneamente à queda do endividamento no setor privado ocorreu um correspondente aumento da dívida do setor público.O estoque da dívida pública aumentou para 103% do PIB, enquanto o déficit público ainda ronda os 9,5% do PIB.

Parte dessa transferência de dívidas ocorreu de forma direta. O Federal Reserve (Fed), o banco central americano, aumentou o seu balanço de forma significativa e pouco usual, resultado das compras de ativos — muitas vezes denominados “tóxicos” por serem indesejados — que estavam em poder do setor privado.

Será o Fed capaz de reduzir o seu balanço suavemente no futuro?

O ajuste da dívida do setor público — recentemente elevada — ainda está por ser feito. E existem incertezas no processo. Por enquanto, não existem dúvidas sobre a capacidade de o governo honrar suas dívidas. Mas será o Fed capaz de reduzir o seu balanço suavemente no futuro? Há risco de uma inflação mais elevada no longo prazo, com todos os problemas que acarreta, mas que acabe reduzindo o valor das dívidas.

Enquanto o ajuste do setor público não ocorrer, não podemos afirmar que o processo de desalavancagem (redução das dívidas) — que prepararia as bases do recomeço — da economia americana como um todo está sucedendo. Enquanto isso, o crescimento deverá ser baixo e o risco de recessão permanece. O abismo fiscal é mais uma manifestação desse problema.

Estimo que, no final, a maioria dos estímulos fiscais seja renovada, com “apenas” um terço das medidas expirando e gerando uma contração fiscal equivalente a 1,2% do PIB. O Fed tentará contrabalançar esse choque fiscal negativo
com seu novo estimulo monetário — comprará US$ 40 bilhões por mês de títulos ligados a hipotecas e manterá o juro básico em zero. Mas dificilmente conseguirá evitar crescimento do PIB um pouco abaixo de 2% no ano que vem. O impulso monetário tem limites na sua capacidade de estimular a economia.

O susto está encomendado para o final do ano. Há risco de falta de consenso político após as eleições nos EUA. No final, esperamos que a racionalidade prevaleça e a queda no abismo fiscal seja evitada.

Fonte: O Globo, 02/10/2012

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