O que faz a diferença

Prezada dona Dilma Rousseff, esta não é a primeira carta que lhe escrevo e não há de ser a última. Comecei a escrever para a senhora ainda quando era, por assim dizer, a primeira-ministra do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mais precisamente, quando ele manifestou o desejo de fazê-la sua sucessora. A senhora acha que é coisa pessoal? De forma alguma! Eu tenho escrito a todos os presidentes da República, há décadas. Essa é uma forma de levar a eles as verdades que os seus áulicos se abstêm de lhes transmitir.

Eu e muitos mais temos ojeriza ao seu partido e a tudo aquilo que representa. Sinceramente, achamos que a maioria dos seus correligionários – ao menos aqueles que gozam de algum provento ou benesse pública – é hipócrita. Eles estão no poder e insistem em fazer um discurso oposicionista, condoreiro e arrebatado.

Quando é que eles vão acordar? Ou melhor, quando é que nós vamos acordar?

Para mim, sinceramente, não há nenhuma diferença entre corruptos de esquerda e corruptos de direita; entre homicidas de um lado ou de outro.

Por que o Cesare Battisti haveria de ser melhor do que o Jorge Rafael Videla? Ambos transgrediram as regras mais elementares de uma sociedade civilizada. Só que o primeiro, alegando ter agido em nome de uma causa justa, está livre e solto no Brasil. Já o segundo cumpre prisão perpétua na Argentina. Teria Videla tido melhor sorte se tivesse fugido para cá?

Não há nada de novo nisso. Juan Domingo Perón, desde meados da década de 1940, já agia assim. E até hoje o partido dele elege presidentes – e presidentas – da República platina.

Seja com Hugo Chávez (Venezuela), Evo Morales (Bolívia) ou Rafael Correa (Equador), o fato é que esse discurso populista de esquerda se vem alastrando como uma praga pelo nosso continente. Essa gente fala em igualdade enquanto só dá guarida aos seus. Eles tacham os seus opositores de fascistas, mas praticam o mais escancarado corporativismo. É aquela velha história: para nós, tudo; para os outros, o rigor da lei.

E temos de ficar precavidos. Quem fala em liberdade é visto como de direita. Os da esquerda preferem falar em libertação.

Estes últimos são arrogantes porque entendem que todos os seus eventuais malfeitos não passam de “acidentes de percurso”. Os fins justificam os meios. Tudo se perdoa quando a causa é a justa. Afinal, eles acreditam ser os únicos e legítimos porta-vozes dos mais humildes.

Quem está com a razão? Provavelmente nenhum.

Mas não lhe estou escrevendo por isso. Embora eu não tenha apoiado a sua candidatura a presidente da República, entendo que todos nós, brasileiros, devemos torcer para que o seu governo dê certo. Até porque o pior que pode acontecer é o seu antecessor voltar.

Temos notado, nestes seus primeiros seis meses de governo, a sua opção por uma menor exposição pública. Nas raras vezes em que apareceu, mostrou-se reservada e comedida.

Aqui, na planície, eu posso garantir-lhe que o seu comportamento recatado lhe tem assegurado o apoio de gente que a senhora nem imagina. São pessoas que lhe negaram os seus votos por entenderem que o seu governo seria uma continuação do de seu mentor. E adotaria o mesmo estilo falastrão e bravateiro de se comunicar.

Quantos despautérios, meu Deus! E os seus acólitos ainda pretendiam, pouco tempo atrás, criar uma nova língua portuguesa. Feita sob medida para o jeito especial de ele falar.

Nesse sentido, o início de sua gestão se tem revelado uma agradável surpresa.

O que se teme, agora, é o contrário. Naquilo em que Lula pecou por excesso, a senhora, agora, corre o risco de ser marcada pela escassez. Estou falando de decisão e atitude.

Já residi aí, pertinho de onde a senhora está, no Planalto Central. Entre as coisas que aprendi, uma das principais é que, diante das situações críticas, é melhor tomar uma decisão errada do que não tomar decisão nenhuma. Erro dá para corrigir; indecisão, não.

A senhora se lembra dos anos 1970? Pois naquela época, nos Estados Unidos, havia um presidente que ganhou a fama de ser indeciso, Jimmy Carter. Ele não conseguiu ser reconduzido ao cargo porque – na ânsia de encontrar as melhores soluções – quando se decidia já era tarde demais. Acabou sendo substituído por um ex-ator de cinema, Ronald Reagan. Os eleitores sabiam que este tinha menos cultura, mas o escolheram por demonstrar mais convicção.

Dona Dilma, deixe de se ocupar das miudezas da administração. Existem por aí muitos profissionais capacitados para cuidar disso.

Ninguém precisa de uma presidente que seja apenas eficiente. O que se espera da senhora, agora, é liderança. E para tanto é preciso empunhar uma bandeira, sair das trincheiras e mostrar o caminho.

A senhora há de saber que os maiores oradores da Antiguidade foram Demóstenes, em Atenas, e Cícero, em Roma. Mas, provavelmente, desconhece qual era a maior diferença entre eles.

Plutarco, historiador, biógrafo e ensaísta grego, comparou os dois, estudou a vida e a personalidade de ambos e não chegou a grandes conclusões. Cícero era mais culto e experiente, porque havia ocupado diversos cargos públicos. Quanto ao ateniense, o registro é de que o seu discurso era mais veemente.

Quem, com grande perspicácia, veio a observar o que, de fato, os distinguia foi John F. Kennedy: “Quando, no Senado romano, Cícero discursava, as pessoas comentavam: “Como ele fala bem!””.

Já com Demóstenes as reações eram outras. Após a sua fala, na Ágora, as multidões bradavam: “Marchemos!”.

Fonte: O Estado de S. Paulo, 01/07/2011

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