Terça-feira, 6 de dezembro de 2016
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O que se vê e o que não se vê na Olimpíada e gastos públicos

Muito se fala a respeito do potencial multiplicador de gastos governamentais em grandes obras públicas. Em especial neste período de grandes eventos, como Copa do Mundo e Jogos Olímpicos, o assunto tem sido debatido, mas certamente menos do que mereceria em um país verdadeiramente preocupado com seu futuro.

O escritor francês Frédéric Bastiat (1801-1850) nos explica de forma didática esta dicotomia. No clássico “O que se vê e o que não se vê”, Bastiat traz uma anedota de uma criança que quebra a vidraça de uma loja, causando a consternação do seu proprietário. Ato contínuo, temos a chegada de um estranho bem intencionado que anuncia que a destruição da vidraça deveria ser vista como um bem para a sociedade, dado o fato de que o proprietário da loja teria que contratar um vidraceiro; e este, por sua vez, gastaria esse dinheiro, digamos, na padaria; e o padeiro pagaria seus funcionários que disporiam de mais dinheiro para consumir algum bem ou serviço que fosse de seu interesse. A conclusão é de que, logo, o dinheiro gasto pelo proprietário da loja em uma nova vidraça viria a movimentar toda a economia da cidade. O moleque travesso deveria, portanto, ser aplaudido, e não castigado.

Mas é lógico que há um grave equívoco nessa história. Estamos vendo o dinheiro gasto com a nova vidraça, que certamente beneficiou o vidraceiro. Afinal este ganhou inesperadamente um novo cliente. Talvez até pela urgência em ter sua vidraça de volta, o proprietário da loja tenha tido que pagar mais caro do que normalmente o faria. Esse dinheiro pago ao vidraceiro é o que se vê. O que não se vê são todas as diversas possibilidades não concretizadas que ainda estariam vivas se o lojista não tivesse sido forçado por força das circunstâncias a gastar dinheiro para ter basicamente o mesmo bem-estar. Com o dinheiro gasto com uma nova vidraça ele poderia, por exemplo, ter adquirido um novo paletó, feito as compras do mês no supermercado, comprado remédios para sua mãe doente, e até pago a mensalidade do colégio de seu filho – atrasada há alguns meses.

É óbvio que qualquer pessoa e qualquer sociedade sempre vai preferir “ter mais” a que “ter menos”. Em relação a Copa do Mundo e Olimpíadas, ao custo de mais de 100 bilhões de reais, o Brasil ganhou diversos estádios e arenas esportivas de última geração. Mas esta é apenas uma parte da questão: o que se vê. Por outro lado, a alocação de recursos públicos escassos em empreendimentos com retorno público incerto deixaram em aberto uma série infindável de possibilidades que não puderam se tornar realidade porque, bem, os recursos são escassos. É o que não se vê.

Dada a falta de debates em torno do orçamento público e da própria função do Estado na nossa sociedade faz-se necessário reiterar: os mais de 100 bilhões investidos para viabilizar estes grandes eventos em nosso país fazem e farão uma falta tremenda no dia a dia dos brasileiros. Para se ter uma ideia, este valor é pouco menos do que todo o orçamento da saúde no Brasil para o ano de 2016. O que não se vê, portanto, são as milhares de vidas que poderiam ser salvas com um investimento adequado em setores mais prioritários do que a construção de estádios e arenas.

Não por acaso, Bastiat chamava a atenção para o que ele considerava a diferença entre um bom e um mau economista: um se detém apenas no efeito que se vê; o outro leva em conta tanto o efeito que se vê quanto a diversas possibilidades que não podemos prever de pronto. O mesmo vale para o bom e, especialmente, o mau gestor público.

Fonte: “Gazeta do povo”, 3 de maio de 2016.

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