O realismo de Mantega e os riscos do Estado gastador

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, prevê, conforme deixou claro na entrevista exclusiva publicada ontem no Brasil Econômico, um crescimento do PIB na casa de 4% em 2013

Segundo ele, o pior da crise ficou para trás e esse número poderia ser até mais expressivo se dirigentes americanos e europeus abandonassem a gestão ortodoxa e adotassem um pouco da receita keynesiana. Para o ministro, o estado investidor tem papel preponderante para ajudar os países a superar as crises.

O inglês John Maynard Keynes dizia exatamente isso, e suas ideias foram fundamentais não só para livrar os EUA dos efeitos da crise financeira de 1929, como, também, para acelerar (já depois de sua morte, em 1946) o renascimento da economia da Europa destruída pela Segunda Guerra Mundial.

Foi o principal formulador do acordo de Bretton Woods, que estabeleceu (em 1944, ainda durante o conflito) os termos da nova ordem que deveria regulamentar as relações econômico-financeiras entre os países.

Formuladas por um dos pensadores mais lúcidos e sensatos que a humanidade já conheceu, as ideias de Keynes começaram a perder prestígio nos anos 1970, quando o mundo se deu conta de que, em nome delas, foram cometidos barbaridades fundamentais.

A principal delas foi o de transformar em permanente a presença do Estado na economia, quando, para Keynes, ela deveria se limitar ao período de crise.

Sobretudo na Grã-Bretanha, a má aplicação do keynesianismo foi responsável pelo inchaço estatal que tirou a competitividade da economia e só começou a ser contido pelo programa de desestatização liderado por Margaret Thatcher nos anos 1980.

O que se viu ali foi o mesmo problema que se percebeu em outros lugares, inclusive no Brasil de tempos nem tão remotos assim. O Estado começa a investir para tirar a economia de uma crise séria, gasta até o limite de sua capacidade e continua a gastar mais do que pode depois que a crise é debelada.

Parte dos problemas vistos hoje na Europa deriva do fato de que os Estados do continente estavam excessivamente presentes na economia – e não porque estavam ausentes.

Mantega certamente sabe disso. Mas, para ele, é fundamental mostrar ao mundo que os responsáveis pela economia brasileira sabem em que direção a estão conduzindo. O grande problema não é o investimento estatal nas obras de infraestrutura necessárias para a aceleração do desenvolvimento.

O Estado, nesses casos, gasta conforme o orçamento. O problema é, na verdade, a criação de estruturas permanentes que forçam o aumento das despesas de custeio e pelas quais o Estado (ou melhor, o contribuinte) fica eternamente responsável. Essas devem ser evitadas a qualquer custo. Sob pena de o país ressuscitar problemas (como a inflação) dos quais a sociedade custou a se livrar.

Fonte: Brasil Econômico, 02/10/2012

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