Com a habitual precisão, o editorial deste jornal, na sexta-feira, dizia: “O presidente Lula é um político que não tem princípios. Tem fins.” A análise focalizou questões éticas e políticas, mas pode ir além. Essa atitude do presidente tem impacto também na administração e na política econômica de seu governo.

O modo como o presidente desclassifica denúncias de corrupção ou de mau uso do dinheiro público levanta uma dúvida enorme sobre os gastos da Presidência da República, seus palácios, seus gabinetes, suas viagens, sua manutenção. Se Lula acha, por exemplo, que não tem nada demais na distribuição de passagens aéreas por deputados e senadores, quais critérios utilizará quando se tratar da lista de passageiros dos aviões a serviço da Presidência? Se ele não se escandalizou com a nomeação de parentes, amigos e correligionários no Senado, por que se escandalizaria com a mesma prática no Executivo, aí incluídas as grandes estatais?

Boa parte das despesas “presidenciais” é secreta, por supostas razões de segurança nacional. Mas há um evidente exagero aí. Está certo que não se pode divulgar o nome, o celular e o endereço dos seguranças da família do presidente, mas não haveria qualquer ameaça se fosse divulgado o valor detalhado dos gastos com isso. Digamos, também, que seja um risco informar onde a Presidência faz suas compras, mas, de novo, não há ameaça na divulgação exata e transparente do volume de despesas com cada item.

Tome-se o exemplo da Inglaterra, onde o risco de terrorismo é obviamente muito maior do que aqui. Lá, os gastos da família real são divulgados detalhadamente e aprovados, item por item, pelo Parlamento. Essa abertura vale inclusive para o primeiro-ministro. É assim também nos EUA, onde, aliás, há regras muito mais rigorosas sobre o que os contribuintes pagam para o presidente (e sua família) e o que ele tem de cobrir, na física. Outro dia, aliás, Obama publicou a declaração de renda dele e de sua mulher.

E como a atitude do presidente é um sinal para toda a gestão, se Lula estiver imprimindo uma gestão, digamos, mais tolerante, isso se espalha por toda a administração. Note-se: Brasília normalmente tende à mordomia. Se o presidente também a pratica e a estimula, a coisa desanda.

Já na política econômica temos uma bela ironia: a atitude de Lula de guiar-se pelos fins produziu um bom resultado. O presidente, quando na oposição, atacava ferozmente a política econômica construída nos anos FHC. Assim como já disse que Sarney era “grileiro” e “grande ladrão”, também dizia, para ficar em um exemplo apenas, que o Banco Central (BC) estava a serviço dos banqueiros nacionais e internacionais. Citava como “prova” a nomeação de executivos do sistema financeiro para as diretorias do BC. Quando Armínio Fraga veio de uma diretoria do fundo de investimentos de George Soros para a presidência do BC, era a raposa tomando conta do galinheiro.

Passa o tempo, Lula se elege. E quem traz para o lugar de Armínio? Um ex-presidente mundial de um banco global: Henrique Meirelles, ex-CEO do Bank of Boston. Por que Lula fez isso? Porque criaria uma enorme crise de confiança na moeda se nomeasse um dos economistas que o acompanhavam. Em 30 de setembro de 2002, quando estava claro que Lula venceria as eleições, o dólar foi a R$ 4, os juros em reais foram para 29% ao ano – em dólares, para absurdos 35% -, a Bolsa caiu para os 8 mil pontos e o risco Brasil foi a 2.400 pontos. Puro medo do que poderia ser um governo do PT.

Foi por isso que Lula jogou fora o discurso econômico dos anos anteriores, abandonou seus economistas e jurou manter as bases da política do Real. Deu provas disso ao montar uma equipe econômica que não devia nada ao time anterior, exagerando no BC: pôs logo um raposão, um chefão da banca internacional. Seu governo praticou a política econômica clássica com rigor extremo. Seguiu o figurino: líderes sobre os quais há desconfiança no mercado precisam ser mais realistas que o rei. Tony Blair, ao assumir o poder na Inglaterra, decretou a independência do banco central. Lula não fez isso, mas deu toda autonomia a Meirelles e, como prova de austeridade, ampliou o superávit primário. E deu certo também graças à ajuda da economia mundial, que passou a crescer forte, em toda a parte.

Pulando a história, Lula tem hoje credibilidade no mercado internacional. É visto como o melhor exemplo da esquerda responsável. Parece, porém, que isso subiu à cabeça de Lula. O presidente parece achar que, agora, pode dizer e fazer o que lhe vem à telha. Protestos e conflitos no Irã? Bobagem, coisa de perdedor. E assim vai, recusando-se, por exemplo, a condenar ditadores. Na política internacional, isso não tem problema. Ao contrário do que pensa o próprio Lula, a posição dele não tira o sono de ninguém. Aqui dentro, porém, o fato de Lula se guiar pelos fins já causa problemas na economia. É o caso da poupança. A lógica do Real e do processo de “desinflação” exige o fim da indexação, inclusive da poupança. É condição para a queda dos juros até no nível internacional. Mas “mexer na poupança” é um risco político-eleitoral. A mudança proposta – e ainda não implementada – é um quebra-galho, dá para levar até uma taxa básica de juros na casa dos 8%. Mas é um atraso de política econômica.

O que levanta a desconfiança. Se Lula aderiu a essa política econômica não por convicção, mas para acalmar o mercado e evitar um colapso financeiro, por que não abandonaria essa mesma política para ganhar a eleição para Dilma? A resposta dos analistas é a seguinte: porque voltaria a instabilidade, a inflação e tudo o mais. Mas hoje o País tem uma sólida estabilidade macro e Lula ganhou, sim, credibilidade. Isso pode ser destruído, mas leva algum tempo. Detonar os gastos públicos, abandonar o superávit primário, forçar uma queda artificial dos juros, isso pode desestabilizar aos pouquinhos. Quando se percebe, já era.

(O Estado de S. Paulo – 22/06/2009)

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