A Expo Management é um dos maiores eventos mundiais dedicados ao conhecimento da gestão empresarial. Neste início de dezembro, no encerramento do encontro anual de três dias realizado em São Paulo, tive a oportunidade de debater com Paul Krugman, Prêmio Nobel de Economia, sua análise do panorama global.

O desalento de Krugman ante a contundência da crise nos Estados Unidos era indisfarçável. Sua perplexidade trouxe-me a inevitável lembrança de Alan Greenspan em uma conferência há cerca de um ano em Washington. Em minha palestra na ocasião, imediatamente anterior à sua fala, atribuí importante papel na construção da crise ao banco central americano. Greenspan parecia atordoado, suas explicações, pífias, seu espírito, alquebrado.

Para Krugman, a crise começou em 2008 tão mal quanto a Grande Depressão. A produção industrial caiu com a mesma intensidade, e o comércio mundial desabou ainda mais rapidamente do que em 1929. Mas, ao contrário do agravamento então ocorrido naquela crise, tivemos desta vez uma estabilização da produção e do comércio. O ano de 2009 trouxe certo alívio, ensaiando-se até mesmo uma recuperação econômica para 2010. E aqui chegamos a uma bifurcação: o possível descolamento entre as economias avançadas e os mercados emergentes.

Para os países mais ricos, Krugman teme uma recuperação apenas transitória, com sérios riscos de retrocesso. Considera mais provável uma desaceleração do crescimento em 2010, frustrando as projeções favoráveis de recuperação sustentável.

“A nossa munição acabou. As taxas de juros já estão próximas de zero, o impacto dos estímulos fiscais está passando e não haverá apoio político para as medidas ainda mais drásticas que seriam necessárias”, reclama em desespero ante o buraco negro que ameaça engolir a economia americana.

Aliás, o oportuno alerta de Ariano Suassuna de que à volta de um buraco tudo é beira foi a síntese que fiz das expectativas de Krugman para a economia americana nos próximos anos. Afirmando que só após a Segunda Guerra Mundial foram superados os efeitos da Grande Depressão, estimou uma recessão prolongada para os EUA.

A situação é bastante distinta para os emergentes, particularmente o Brasil. A perspectiva de gradual descolamento em relação à crise americana é real.

Os preços das commodities permanecem favoráveis, o contágio financeiro foi superado e são melhores os fundamentos fiscais e monetários. Teremos um agradável desafio: evitar a Bolha Brasil, uma imensa onda de liquidez capaz de derrubar o câmbio, ampliar o crédito e inflar as bolsas em excesso graças a nosso favoritismo nos mercados de capitais globais.

Como se vê, pelo menos para o futuro próximo, a visão de Krugman quanto ao desempenho assimétrico entre avançados e emergentes se assemelha à profecia de Antônio Conselheiro no clássico de Euclides da Cunha: o sertão vai virar mar, o mar vai virar sertão…

Fonte: Jornal O Globo, 14 de dezembro.

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1 comment

  1. Abraham Shapiro

    Preciso fazer contato com o Sr Paulo Guedes. Se possível, dêem-me acesso a seu e-mail. Grato