Crítico feroz do plano cruzado em seu lançamento, em 1986, fui chamado a Brasília um ano depois para explicar sua trágica evolução a um grupo de políticos e ministros civis e militares. A matéria era importante, então, para o voto na Assembleia Constituinte de 1988, sobre a duração do mandato do ex-presidente José Sarney. Percebi claramente uma divisão: os que se mostraram céticos quanto a meu diagnóstico eram a favor de seis anos, enquanto os outros usavam minha análise para defender o mandato de cinco anos – pois, quanto mais tempo o governo ficasse em chamas, melhor para a oposição.

A inflação disparou no final do governo Sarney. O caos econômico ameaçava o processo político. O governador Leonel Brizola, então à frente nas pesquisas eleitorais, enviou um emissário da mais alta confiança ao encontro do presidente Sarney. A um ano do fim do governo, ainda sem ameaça visível dos que acabariam finalistas nas eleições (Lula e Collor), Brizola saborearia antecipadamente a vitória, não fosse a terrível ameaça da hiperinflação. Seu sexto sentido temia um retrocesso.

O raciocínio era claro: se nada fizesse, Sarney sofreria a ameaça do mandato interrompido, como ocorrera com o governo Raúl Alfonsín, na Argentina. Para Brizola, aquela situação traria duplo risco: primeiro, a realização das eleições de 1989 seria colocada em dúvida no caos da hiperinflação. Segundo, mesmo eleito, a necessidade poderia empurrá-lo em direção a sua ruína política. Ele teria de pedir socorro ao Fundo Monetário Internacional (FMI), mudar o regime fiscal, liberar o câmbio, conceder a independência ao Banco Central, desindexar salários, eliminar subsídios.

A proposta de Brizola era ousada. O governo Sarney recorreria ao “choque liberal” em seu último ano. Faria tudo aquilo que fosse impopular, mas necessário à estabilização econômica, que a biografia de Brizola não permitiria. Em contrapartida, Sarney teria a compreensão das forças oposicionistas, uma espécie de trégua ou entendimento, para que completasse seu mandato dedicando-se a uma justa causa.

A proposta de Brizola a Sarney, para que o final de seu mandato tivesse bom andamento em proveito de ambos, não se limitava ao feitiço. Indicava também os feiticeiros, os economistas responsáveis pela condução das medidas: “Deveriam ter coragem suficiente para aplicar o choque, ser preparados o suficiente para merecer o respeito lá fora e ingênuos o suficiente para aceitar o convite”. Uma história esdrúxula, de realismo fantástico. Um presidente tomado pela síndrome da ilegitimidade recorreu a um plano heterodoxo populista, que desembocaria numa moratória da dívida externa e num congelamento da dívida interna. Sem apoio político no final do mandato, ofereceria cargos de ministro a jovens economistas liberais sob o patrocínio de Brizola.

Os economistas citados éramos Paulo Rabello de Castro – que, na semana passada, estreou sua coluna neste espaço – e eu. A proposta me foi contada, em forma de sondagem, por um emissário que gozava de intimidade do então presidente Sarney. A sondagem me foi confirmada por um folclórico personagem da mídia, que se gabava de fazer ministros, embora sempre chegasse pouco depois dos emissários oficiais. O mensageiro de Brizola a Sarney pedia sigilo absoluto. Fiz decididamente a minha parte para preservar nossa espécie, caro Paulo.

Pouco mais tarde, Roberto Campos também se lembraria de nossos nomes, como relata em sua A lanterna na popa: memórias (1994) : “Se Collor quisesse gente mais jovem, eu recomendaria economistas de persuasão liberal, capazes de excogitar e implementar um bom esquema anti-inflacionário, sem as mágicas dos planos anteriores. Os dois nomes que me ocorriam eram os dos jovens economistas Paulo Guedes e Paulo Rabello de Castro”. Na época, numa interessante conversa com Zélia Cardoso de Mello, percebemos, a futura ministra e eu, que tínhamos visões diferentes acerca dos problemas do país.

Boas-vindas a Paulo Rabello. É bom economista, escreve bem, e os leitores de ÉPOCA podem, com seus artigos, sonhar com um Brasil melhor.

Época – 17/02/2009

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