“Prever o futuro econômico significa prever decisões no investimento e consumo que são tão incertas quanto todo o futuro.” (Albert Hahn) A concentração de poder em poucas mãos sempre irá representar um enorme risco para os indivíduos. Isto não é diferente quando o assunto é economia. Por tratar-se de um campo com um jargão muito técnico, os leigos acabam vendo certas figuras como “sábios clarividentes”, delegando a esses as rédeas de toda a economia. Entretanto, não devemos esquecer que são apenas humanos, sujeitos às falhas comuns da espécie, além de pressões externas e busca de interesses próprios. Tendo isso em mente, uma postura alerta de eterna vigilância, assim como a criação de mecanismos que possam mitigar os riscos de abusos de poder ou graves erros, muito podem contribuir para melhores resultados. O ex-governador do Federal Reserve, Laurence Meyer, escreveu um livro (A Term at the Fed) que fala de sua experiência nos anos que passou no banco central americano. Algumas passagens são elucidativas. Meyer diz que logo descobriu que o Fed não sabe precisamente onde a economia está ou onde ele quer que a economia vá. Em certa ocasião, após o primeiro aumento na taxa de juros depois de dois anos, Meyer foi honesto ao afirmar que “a verdade é que nenhum de nós do FOMC sabíamos o que aconteceria em seguida”. O FOMC é o todo-poderoso comitê que decide a taxa de juros básica da economia, assim como nosso COPOM. Tal decisão exerce profundo impacto na economia, e acaba ficando sob a tutela de alguns poucos homens. O próprio Meyer chamava a equipe de “o templo”, em parte pela obscuridade do processo decisório. É evidente que o mercado acaba tendo muita influência nas decisões do Fed. Mas seria o caso de questionarmos até onde pouco mais de uma dezena de indivíduos falíveis deveriam concentrar o poder sobre o destino econômico de toda uma nação. No livro, Meyer deixa algumas sugestões para maior eficiência de um banco central. Reconhecendo os riscos da pressão política no processo de decisão e a enorme influência que as medidas adotadas por esses poucos homens exerce, Meyer conclui que a independência dos bancos centrais é uma das grandes invenções dos homens. Além disso, uma maior transparência se faz necessária. Ele recomenda o uso de inflation targets, onde o banco central determina uma meta de inflação e utiliza seus mecanismos com tal objetivo apenas. Vários países desenvolvidos adotam este modelo, tais como Nova Zelândia, Inglaterra, Canadá e Suécia. Por fim, parece que Meyer gostaria de um poder mais pulverizado entre os membros do comitê. Ele chegou a desabafar: “Para ser sincero, eu fiquei frustrado com o poder desproporcional que o chairmain tinha sobre o FOMC”. Não é à toa que muitos chamavam Alan Greenspan, o ex-presidente do Fed, de “maestro”. Creio ser interessante então vermos o que o próprio Greenspan pensava sobre o Fed no passado, quando ainda não tinha tamanho poder em mãos. Em 1966, no livro Capitalism: The Unknown Ideal, de Ayn Rand, Alan Greenspan contribuiu com um artigo muito esclarecedor sobre suas posições políticas e econômicas. Sobre as causas da criação do Fed, vejamos o que ele disse: “Foram as reservas de ouro limitadas que pararam as expansões desequilibradas da atividade de negócios, antes que pudessem se desenvolver no tipo de desastre após a Primeira Guerra Mundial. Se os bancos pudessem continuar a emprestar indefinidamente o dinheiro – reivindicou-se – nunca mais precisariam ocorrer quedas drásticas nos negócios. E o Federal Reserve System (Fed) foi portanto criado em 1913.” Greenspan parecia ser bastante desconfiado em relação à eficácia do Fed. Ele basicamente imputou ao banco central as causas da amplificação da crise de 1929: “Quando a economia nos Estados Unidos se submeteu a uma contração suave em 1927, o Fed criou mais reservas de papel na esperança de prevenir alguma falta possível da reserva bancária. Mais desastrosa, entretanto, foi a tentativa do Fed de ajudar a Grâ Bretanha que vinha perdendo reservas de ouro para os Estados Unidos porque o Bank of England recusou-se a permitir que as taxas de juros subissem quando as forças do mercado assim demandavam (era politicamente inaceitável)”. Ele conclui: “O crédito adicional que o Fed injetou na economia se espalhou para o mercado financeiro – provocando um crescimento especulativo fantástico. Em 1929 os desequilíbrios especulativos tinham-se tornado tão exagerados que a tentativa de enxugar as reservas adicionais precipitou uma aguda retração e a conseqüente desmoralização da confiança dos empresários. Em conseqüência, a economia americana desmoronou”. Ironicamente, Greenspan seria acusado por muitos de agir de forma semelhante na sua gestão como manda-chuva do Fed. Até mesmo Meyer reconhece o risco do efeito perverso que existe na crença de que o banco central sempre irá socorrer os investidores injetando liquidez no sistema. Para concluir, após o alerta de que a concentração de muito poder em poucas mãos representa sempre um grande risco, podemos voltar a atenção para o caso brasileiro. Se estes riscos são grandes em um país com sólidas instituições como os Estados Unidos, podemos imaginar como deve ser o nosso caso. De fato, temos uma boa noção disso através de uma entrevista publicada meses atrás no jornal Valor por Chico Lopes, ex-presidente do Banco Central do Brasil. Nela, vemos como certas decisões cruciais eram tomadas de forma irresponsável, sob enorme influência política. É esclarecedora a entrevista – e estarrecedora também. Câmbio e juros são preços, e como tais, devem ser livres. Alguns leigos acham que tais preços podem e devem ser arbitrariamente impostos pelo governo, ignorando as terríveis conseqüências disso. O mercado deve ser livre para funcionar. O banco central deve ter um objetivo bem definido, ser independente das pressões políticas e mostrar a maior transparência possível. Seria saudável se entrasse na pauta de debates políticos e econômicos esse tema. Questionar a suposta clarividência do “templo” não faz mal algum.

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