No Brasil as idéias têm, como tudo o mais, poder, mas não têm valor. Com elas – supõe-se – se fazem revoluções, promove-se a justiça e liquida-se a fome. Mas ninguém sabe muito bem quem as inventou: se são inatas ou aprendidas; se fazem parte de algum sistema ou conjunto; se saem diretamente da cabeça das pessoas ou das televisões, das telas dos cinemas, das igrejas ou dos livros.

O poder – e estamos, mais uma vez, aprendendo a lição porque agora somos nós e não eles – é complicado (são muitas disputas), difícil (há inúmeros projetos), árduo (toda decisão implica reflexão, tempo e conhecimento mínimo do assunto), ingrato (eu dou tudo, e eles querem sempre mais) duro (como é que eu vou dizer não para o fulano?), caro (tenho muito mais ambições do que meios para realizá-las) e ambíguo (eu posso tudo, mas falar de mim desse jeito é falta de respeito institucional: temos que processar, expulsar, prender ou dar uma lição)…

Para quem tem poder, o sucesso não se explica pelo domínio abstrato das idéias, mas por meio de uma misteriosa ‘prática’ ou ‘conhecimento da realidade’ da ‘vida’. É o saber do propalado caminho das pedras que não se ensina a ninguém. Todos os poderosos dizem que ‘lutaram muito’, que foram ‘muito ajudados’, que souberam ‘aproveitar oportunidades’. Poucos falam de idéias. Uma microminoria fala, quando fala, de que essas idéias saíram das salas de aula e dos livros.

Como um povo que, na sua longa fase escravista, cultivou o analfabetismo e a mais bestial ignorância e, na modernidade republicana, a desigualdade social baseada no ‘diploma’, as ‘letras’ sempre foram vistas com desconfiança. Eram, primeiramente, femininas; depois, se concretizaram em poesia que comoviam mas não resolviam; finalmente porque levavam a uma fuga do mundo real e, pior que isso, revelavam aquela face da realidade que ninguém queria enxergar. Contra o mundo das ‘letras’, repetia-se a fórmula da ‘dura realidade’ que obriga a trocar os versos pela tal ‘prática da vida’. Afinal, como disse um poeta (o grande Gonçalves Dias) muito lembrado, porque, na realidade, cantou o que está em nossas cabeças: ‘A vida é combate/Que os fracos abate,/Que os fortes, os bravos/ Só pode exaltar.’

A única idéia que adotamos é que o importante na vida é a sua dura e dolorosa prática. Daí, a popularidade da boutade que conforta e faz a glória de todos os que vivem dos livros e, sobretudo, dos professores: quem sabe faz; quem não sabe, ensina!

Haveria, algo mais expressivo da glorificação da tal ‘prática da vida’? Os que sabem, fazem porque (na ausência do muito ler e refletir que enlouquece), simplesmente executam e praticam; já os que não sabem – os que lidam apenas com as teorias ou as idéias que geralmente não levam a nada ou trazem um mundo de problemas – ensinam. São meros repetidores que, nas salas de aula, falam de coisas abstratas (e dispensáveis) que, por serem virtuais, atrapalham os que querem ir em frente, com a sua maravilhosa prática, mudando radicalmente o mundo, guiados por suas poderosas experiências, como sempre ocorreu na nossa exemplar história social e política. Descobrindo, por exemplo, que a gente moderniza o País tratando os adversários políticos como inimigos; ou acaba com a burocracia criando um Ministério da Desburocratização; ou aceitando o ilegal como legal; ou processando os que nos criticam…

Em suma: as idéias são péssimas e seus carregadores, os livros, uns criadores de caso. Aliás, o livro é, entre nós, um mistério e um atrapalhador. A ele somos avessos como é o Diabo da cruz. De fato, como não ser desfavorável ao livro se ele desdiz a tal ‘prática da vida’, indicando novos caminhos, revelando erros, denunciando um autoritarismo de raiz e formação, em perpétuo combate com as liberdades individuais, e supersensível a qualquer chamada à responsabilidade, sobretudo a que se imprime no cargo público?

Ademais, como não suspeitar desses objetos quadrados que, fechados, são tão mudos quantos as pedras, mas abertos, soltam gritos, soluços e – sobretudo – os imensos silêncios da humanidade nas suas diferenças e semelhanças? A autoridade – pelo menos no Brasil, faz: tenta fechar, proibir, prender, calar. Um dos seus trunfos é o argumento da prática contra o poder das idéias. Da caneta contra a letra; do regimento constitucional (as idéias feitas), contra o livro que ensina não apenas o poder das idéias, mas as suas implicações e responsabilidades.

A ambigüidade do livro é o símbolo vivo dessa intolerável desvalorização das idéias em nosso país. Essas idéias que são também englobadas pelo credo jamais discutido, segundo o qual, quem ensina é a vida, a experiência e uma prática proto-sociológica que promove certezas e que tem como função naturalizar e tornar indiscutível tanto o poder dos poderosos quanto o dinheiro dos ricos.

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