O contra-ataque do Império

Rolf Kuntz

O governo americano acaba de divulgar um estudo intitulado A Competitividade e a Capacidade Inovadora dos Estados Unidos. Um exame de aspectos vitais da maior economia do mundo – desempenho comercial, educação, tecnologia, infraestrutura, evolução do emprego e dos salários e condições do setor manufatureiro – é apresentado num volume de 160 páginas, juntamente com um mapa de políticas para reforço da competitividade. Nenhum tópico relevante é negligenciado. A análise recobre assuntos tão diferentes, à primeira vista, quanto o desempenho dos jovens em testes internacionais, as necessidades de expansão das redes de banda larga, a promoção comercial e os acordos para conquista de mercados, incluída a negociação em curso da Parceria Trans-Pacífico.

Esse estudo, coordenado pelo Departamento de Comércio, foi realizado como parte das tarefas determinadas por uma lei sancionada em janeiro de 2011 pelo presidente Barack Obama. Deve servir de base para políticas de longo alcance, necessárias para reforçar o poder de competição da economia americana, afetado por fatores internos e externos. O objetivo não é produzir uma coleção de pacotes nem resolver problemas conjunturais. A economia americana, observam os autores do estudo, ainda se beneficia de inovações do século 19, como a difusão do ensino universitário, ou de diferentes momentos do século passado, quando o país tomou a liderança da corrida espacial e da tecnologia de informação.

O diagnóstico tem um tom de humilde realismo. Os Estados Unidos tornaram-se no século 20 a maior, mais produtiva e mais competitiva das economias, mas, com aproximação do século 21, alarmes começaram a soar. Outros países se tornaram mais educados. Houve a erosão das bases científicas e tecnológicas essenciais para a liderança americana, enquanto outras potências passaram a construir sólidos fundamentos nessas áreas. Em 2009, jovens americanos ficaram atrás de competidores de 17 países da OCDE em provas de matemática.

Problemas na educação foram um dos seis alarmes apontados no estudo. Os outros cinco foram: 1) o baixo crescimento do emprego; 2) a estagnação dos salários; 3) a piora do saldo comercial da indústria manufatureira; 4) a queda dos indicadores de inovação (como o número de cientistas e engenheiros ou os gastos em pesquisa e desenvolvimento); 5) o atraso da infraestrutura (atrasos em aeroportos, congestionamentos no tráfego, portos despreparados para os novos navios e deficiências da rede de informatização).

Todos esses problemas convergem para um ponto central: a inovação, apontada como principal motor da competitividade, da elevação do salário e do emprego e do crescimento econômico de longo prazo. Três pilares são apontados como fundamentais para uma política de inovação e competitividade: pesquisa, educação e infraestrutura. Em todas essas atividades o governo pode e deve desempenhar certos papéis, indicados não só pelas necessidades atuais, mas também pela experiência americana. Uma das preocupações dos autores do estudo é definir as áreas próprias de atuação do governo e do setor privado e as formas de cooperação para o aumento da produtividade. Isso inclui, por exemplo, uma divisão de funções para o desenvolvimento científico e tecnológico. O governo deve ter um papel predominante na pesquisa básica, mas pode cooperar de mais de uma forma – por meio de incentivos fiscais, por exemplo – com a pesquisa aplicada, em diferentes níveis, como tem ocorrido tradicionalmente. Da mesma forma, o poder público pode contribuir para o maior investimento na educação científica e tecnológica e para aumentar a oferta de pessoal treinado em ciência, tecnologia e matemática. Entre 2000 e 2010, o emprego de pessoal com essas qualificações cresceu 7,9%. Entre 2008 e 2018, o crescimento deve aproximar-se de 18%. A novidade brasileira, no campo da tecnologia, é o reforço financeiro da Finep, ligada ao BNDES. Mas o grande desafio, hoje, seria envolver no esforço da inovação muito mais empresas do que aquelas tradicionais investidoras em tecnologia. Algumas das maiores inovações nos Estados Unidos têm nascido em companhias minúsculas criadas por jovens com pouco dinheiro e muita imaginação.

Os programas de apoio à inovação e ao fortalecimento da indústria deverão incluir mudanças tributárias – e as propostas provavelmente envolverão muito debate no Congresso e muito conflito político. Mas o governo tem um roteiro amplo, razoavelmente bem definido nos pontos principais e sustentado pela contribuição de especialistas de todo o país. A diplomacia comercial deve ser um complemento de todo esse esforço, porque é função do governo abrir espaço para a produção nacional em todos os mercados – obviamente, sem as limitações ideológicas do Itamaraty nos últimos nove anos.

Fonte: Estadão, 12/01/2012

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1 comment

  1. antonio

    Parece-me que há uma tentativa de estatizar o empreendimento pelo governo americano.É a cara do Obama que tudo quer estatizar.