Ódio e frustração

Em novembro próximo haverá, nos Estados Unidos, eleições para renovação total da Câmara de Deputados, parcial do Senado e a maioria dos governos estaduais. Em face do presente cenário político-econômico do país, essa ida às urnas assume significado de extraordinário teste à maturidade política dos americanos.

O que está em jogo é a avaliação dos vinte e dois primeiros meses da presidência Obama. Mas tudo indica que essa avaliação será balisada, em grande medida, por critérios equivocados ou intencionalmente distorcidos. Tanto no lado dos eleitores do Partido Democrata, hoje no governo, quanto do Partido Republicano, na oposição, e também dos eleitores independentes, percebem-se reações ou ingênuas ou rancorosas ao que vem ocorrendo desde a posse de Obama

Na trincheira do Partido Republicano, armas pesadas são usadas com o alvo de enfraquecer o presidente e desalojá-lo da Casa Branca nas eleições de 2012. Os ataques não se limitam às políticas e propostas do presidente, mas também atingem pessoalmente a ele e seus aliados, inclusive tachando-os de socializantes. Até a década de 90, o Partido Republicano era um respeitável porta-voz do pensamento conservador americano, onde predominavam líderes que atuavam de maneira ética, segundo os padrões da política. Porém, desde o final do governo Clinton e, sobre tudo, durante a era George Bush, suas rédeas foram assumidas por figuras da direita exaltada e de escassos pudores éticos, que radicalizaram o discurso do partido.

Movidos por interesses de várias naturezas e pelo ódio aos que não endossam o ideário ultra conservador, essa parcela de republicanos apela para argumentos falsos e toscos, tais como o de que o governo democrata não tem capacidade de superar os estragos provocados pelos oito anos da desastrosa administração dos próprios republicanos, vía Bush.

No lado dos eleitores democratas e dos independentes que votaram Obama, surgiu uma facção frustrada pelo fato de a economia ainda não ter decolado, do desemprego manter-se elevado, das reformas prometidas não terem ainda sido plenamente executadas, de os EUA continuarem envolvidos com Afeganistão, de o impasse com o Irã permanecer insolúvel, do déficit público não diminuir, etc.

Mesmo sem julgar os méritos e deméritos de Barak Obama, é preocupante constatar como, em menos de dois anos no poder, ele já se encontre vulnerável ao sentimento de decepção de uma parcela de seus eleitores. Como se o tempo até agora transcorrido fosse suficiente para recompor os destroços produzidos pela recessão e destrinchar os complexos conflitos internacionais!

O correto, a essa altura, seria avaliar as políticas de médio e longo prazo em implementação pelo governo, ponderar como se encontraria o país se tivesse sido adotado o caminho defendido pelos republicanos e, se for o caso, concluir que Obama está errado e votar na oposição. Mas se os resultados da eleição de novembro forem desfavoráveis ao Partido Democrata apenas como consequência do gênero de descontentamento aqui mencionado, os americanos estarão assinando sua certidão de imaturidade política.

“O Globo”, 14/09/2010

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