Sexta-feira, 9 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

Olimpíadas de alto risco

No dia cinco acontece a abertura dos Jogos Olímpicos de 2016. Nunca na história recente uma edição das Olimpíadas esteve tão ameaçada. Nem mesmo Munique, que assistiu chocada ao trágico atentado contra a delegação israelense, ao começar, sabia de ameaças como as do Rio de Janeiro.

O Brasil teve sete anos para tomar as medidas necessárias para fazer um evento exemplar. Não aproveitamos a chance quando o País ia bem e tinha dinheiro em caixa. Ao contrário, as coisas foram atrasando e, quando olhamos, os jogos estavam aí, sem que tivéssemos feito parte importante da lição de casa.

O resultado é que já passamos vexames constrangedores. Muito antes da queda da ciclovia, os atrasos já apontavam problemas eventualmente sérios, capazes de comprometer os Jogos. Muito do que deveria ser feito sequer começou. O melhor exemplo é a limpeza da Baía de Guanabara, onde as coisas não foram feitas nem no papel. Não há notícia de uma única ação significativa para ao menos minimizar a poluição. Continua tudo como sempre, com dejetos, esgoto e lixo, jogados na baía como se fosse uma enorme cloaca a céu aberto, feita especificamente para armazenar a poluição da cidade. Mas o quadro vai muito mais longe. De verdade, ninguém coloca a mão no fogo pela Lagoa Rodrigo de Freitas. Como ninguém coloca a mão no fogo pela qualidade e resistência das obras que foram feitas para sediar os Jogos.

Os problemas, se Deus quiser, se limitarão a atrasos. Um acidente causado pelo desmoronamento parcial ou total de uma das instalações pode ter consequências dramáticas para os atletas, o público e, principalmente, a imagem do Brasil.

Mas o quadro negativo vai além: as epidemias de zika, dengue e chikungunya continuam aí, correndo soltas, nas asas e ferrões dos mosquitos, que não diminuíram porque as ações do governo deram certo, mas porque no inverno o frio mata parte deles, diminuindo a quantidade de mosquitos voando e zunindo sobre as cabeças dos milhões de pessoas que estarão no Rio durante as três semanas da Olimpíada.

De outro lado, a violência está solta. O governo não conseguiu pacificar a cidade. Ao contrário, comunidades anteriormente ocupadas pelas “polícias pacificadoras” foram retomadas pelo crime organizado. Balas perdidas em tiroteios entre policiais e bandidos matam pessoas que não têm nada com o assunto. Arrastões acontecem com enorme regularidade. A venda de drogas acontece praticamente sem repressão e por aí vamos.

Como se não bastasse, o sistema de saúde pública está superlotado e reconhecidamente despreparado para um evento como a Olimpíada.

Para completar, ao contrário do que afirmou o ministro da Justiça, o fato dos 10 aprendizes de terroristas presos serem amadores não melhora em nada o quadro de um atentado durante a Olimpíada. Não porque o Brasil seja um alvo importante, mas porque o terrorismo necessita visibilidade para ser eficiente. Mais de um bilhão de pessoas ao redor do planeta estarão assistindo aos jogos, ao vivo e em cores, pela televisão. É uma oportunidade rara para levar pânico e horror para o mundo. Então, a ameaça de um ataque é concreta e precisa ser levada a sério.

É neste cenário complicado que a partir de 5 de agosto acontecem os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos do Brasil. Sem uma ampla e sofisticada rede de seguros eles não seriam possíveis. Os valores atingem a casa dos bilhões de dólares apenas em investimentos diretos. Além deles, há todo o custo com sua realização. Os custos de transmissão. De eventual não acontecimento de provas e competições. De danos a terceiros. Terrorismo. Epidemias e surtos de doenças. Intoxicações e envenenamentos coletivos. Acidentes com atletas, delegações, espectadores, turistas, funcionários, etc.

Provavelmente não acontecerá nada, mas se acontecer, os jogos estão protegidos por programas de seguros altamente sofisticados. O ideal é que não seja necessário utilizá-los, mas eles estão aí para isso.

Fonte: O Estado de S.Paulo, 01/08/2016.

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