Onde está a estratégia de retirada dos estímulos?

Alguns dados já mostram que as economias reagem positivamente aos estímulos fiscais e monetários dos governos do mundo todo e as bolsas disparam de forma ainda mais espetacular. O clima de euforia está de volta. Se Greenspan teve sua parcela de culpa na bolha anterior por manter a taxa de juros artificialmente reduzida por tempo demais, parece que isso já foi esquecido. Bernanke deseja repetir o feito: uma nova bolha para “curar” os males causados pela anterior.

Politicamente, a inação diante de um “credit crunch” causado por excesso de crédito fácil pode ser fatal. Os governantes são impelidos a agir, evitando o sofrimento da fase de ajustes. Tal como um organismo exposto por tempo demais à euforia gerada pelo excesso de bebida, a economia precisa enfrentar uma fase de ressaca para eliminar os excessos da bolha. Mas ressaca nunca é algo popular, e todo político luta para postergar sua chegada. Na última crise, não foi diferente e o grau de injeção de liquidez foi impressionante.

O Federal Reserve (Fed, Banco Central americano) assumiu o papel dos bancos comerciais em dificuldade, estendendo seu balanço de forma assustadora. Sua independência em relação ao governo americano encontra-se ameaçada. Além disso, o próprio governo vem expandindo seus gastos de forma insustentável, com um déficit acima de US$ 2 trilhões este ano. E para piorar a situação, o governo americano não está sozinho nessa empreitada.

O governo chinês, por exemplo, vem mantendo um crescimento da base monetária próximo de 25% ao ano. O Banco Central Europeu mantém uma política agressiva de juros baixos. O Banco da Inglaterra idem. Em suma, todos os governos e seus braços monetários estão inundando os mercados financeiros com moeda de papel na esperança de reativar o crescimento econômico. Porém, este depende de investimentos produtivos, resultante de mais poupança. Não é possível manter de forma sustentável um crescimento dependente da injeção de moeda pelos bancos centrais ou de gastos públicos. Cedo ou tarde, a conta terá de ser paga pelo aumento dos juros ou dos impostos.

O foco dos bancos centrais nos índices de inflação pode ofuscar a visão da realidade. Com capacidade ociosa na economia, desemprego elevado e bancos ainda relutantes em aumentar o crédito novamente, os estímulos fiscais e monetários demoram a bater nos preços finais de bens e serviços. Um tipo diferente de inflação ocorre: a do preço dos ativos. Em outras palavras, uma nova bolha especulativa acaba sendo estimulada e muitos passam a confundi-la com uma recuperação econômica verdadeira. Mas faltam os alicerces básicos para uma retomada econômica sustentável. Quando as doses de injeção de liquidez forem reduzidas ou revertidas, o impacto poderá ser brutal. Os mercados, como um viciado, necessitam de cada vez mais doses apenas para manter o clima de euforia.

Surge a importante questão: onde está a estratégia de retirada dos estímulos? Paul Volcker, o ex-chairman do Fed, teve coragem de subir drasticamente as taxas de juros na década de 1980 para debelar a inflação galopante. Mas Jimmy Carter era um presidente fraco e o banco central conseguiu atuar com independência política. Reagan, que assumiu depois, nutria simpatia pelo livre mercado e apoiou as medidas impopulares do Fed. Será que Bernanke teria a mesma coragem de Volcker, sendo ele um defensor da política de jogar dólares do helicóptero para evitar uma depressão? Será que Obama está disposto a encarar uma recessão dura para evitar uma inflação descontrolada?

Com custos políticos elevados demais, parece razoável supor que o Fed ficará atrás da curva: vai aguardar uma confirmação plena da recuperação econômica antes de subir os juros. A inflação será uma preocupação secundária ante o foco no crescimento econômico. Mas, postergando a retirada dos estímulos, o governo estará também ampliando sua necessidade no futuro. Os vigilantes dos títulos do governo americano parecem ignorar este risco por enquanto.

Mas o dólar já acusa o golpe. Como a Geni da música, a moeda americana vem apanhando de todo mundo. A aposta do momento tem sido o “carry trade” com o dólar, ou seja, assumir passivo nesta moeda e investir em qualquer outro ativo estrangeiro. O euro já chegou a US$ 1,50 e o ouro disparou para US$ 1.200 a onça. Afinal, nenhum banco central pode imprimir ouro. O fato é que o dólar está em xeque. E se o governo americano não tiver uma estratégia decente de saída para essa sinuca de bico atual? Até quando os credores em dólares vão suportar esta situação?

Fonte: Valor Economico, 03/12/2009

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