A etimologia da palavra não dá margem a qualquer dúvida: o “coitado” provavelmente ficou na posição em que Napoleão perdeu a guerra. É bom lembrar às pessoas a origem do que falam. Ajuda a pensar no que acontece no dia-a-dia do brasileiro.

Há, no Brasil, uma regra difundida mas que é (i) ineficiente economicamente e (ii) bastante sofrível, moralmente. Trata-se da regra da “mão na cabeça do coitadinho”, uma extensão da famosa regra de Gérson para uma classe de pessoas que se auto-denominam “injustiçados” (”alguém tem que dar um jeitinho…na minha situação). Fingem desconhecer o fato de que pessoas reagem a incentivos e se apresentam como vítimas das mais diversas conspirações: dos judeus, dos capitalistas, dos japoneses, dos chineses, dos empregadores, dos professores, dos coronéis, etc.

Como funciona no Primeiro Mundo? É muito simples: existem regras que são, efetivamente ( = “doa a quem doer mesmo”) cumpridas. Claro, não funciona 100% das vezes porque ninguém, aqui ou lá, é perfeito. Mas funciona certamente melhor do que aqui.

Como tudo na vida, há uma oferta e uma demanda desta cultura. Quem demanda? Todos os que desejam privilégios (essencialmente, todos nós). Quem oferta? Quem lucra com isto, normalmente políticos e burocratas. E o produto que se dissemina é a noção (perversa) de que ficar na posição em que Napoleão perdeu a guerra é bonito. Ser “coitado” é virtude. Quem venceu pelo próprio esforço só pode ser egoísta. Quem conseguiu uma baita mamata para si e para seus amigos fazendo-se de “coitadinho” às custas do restante da população é que é o herói.

O sistema de ensino – cheio de pedagogos e pedagogas bem-intencionados(as), claro – não ajuda: diz-se que o importante não é avaliar o desempenho do estudante. Tal como o objetivo da empresa não seria mais dar lucro para seus acionistas, e sim cuidar de jardins e baleias, o objetivo do sistema de ensino não é, para alguns, avaliar o estudante. O importante é , digamos, integrá-lo socialmente (seja lá o que isto queira dizer, não importa, o importante é “sensibilizar”…). Tensão e dificuldades no ato de estudar? Só pode ser, dizem, coisa de capitalista malvado, gente que “idolatra o mercado”, que só se preocupa com “resultados” (a miopia, neste caso, consiste em achar que a ação do “coitadinho” não é racional, auto-interessada e preocupada com resultados…como qualquer outra ação humana). É fácil criar “coitadinhos” assim.

Em um país caracterizado pelo gosto à cultura do “coitadinho”, a última que veremos é uma classe empresarial realmente empreendedora. O resultado mais provável é uma população de pedintes, de mão estendida, requisitando ajuda para si, claro, todos orgulhosos de estarem em posição quadrúpede sem perceberem o perigo que correm…

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1 comment

  1. Valmir Leal

    Concordo com vc Claudio,pois desde que Deus criou o homem e lhe deu o livrearbítrio; este já não tem desculpa.Pois é livre para fazer suas escolhas,sejam elas quais forem.Se fizer o certo não ha nenhuma razão para se considerar pobre e muito menos coitado. Trabalhando e priorizando nosso tempo,seremos certamente vencedores em todas as etapas da vida.Pois oportunidades todos têm pois estamos todos vivos e para os vivos;sempre há esperanças.Saúde e Paz ao amigo.