Segunda-feira, 5 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

Os 7 a 1 de Felipão e os 71% de Dilma

Quem assistiu ao programa do PT, exibido em cadeia de rádio e TV na noite de quinta-feira passada, teve a impressão de voltar no tempo e reviver os momentos mais quentes da última campanha eleitoral. Numa peça bem editada e plasticamente perfeita (em que pese ter sido ancorada pelo canastrão José de Abreu), o partido do governo voltou a insistir na tecla que lhe deu a vitória nas urnas do ano passado. Desqualificou a oposição (a mesma oposição a quem havia proposto diálogo na véspera), exaltou as conquistas atribuídas às administrações do partido e culpou o cenário internacional pela crise que o país está vivendo. Crise que a presidente Dilma Rousseff (em seu primeiro discurso na TV desde as manifestações de março deste ano) preferiu considerar uma “travessia que vai levar o Brasil a um lugar melhor”. Será?

O caminho que o Planalto insiste em percorrer já mostrou os resultados que é capaz de produzir e nenhuma ação do governo indica a intenção de mudar

No final, o programa ainda zombou dos brasileiros que sentem cada vez mais dificuldade na hora de abastecer a despensa ao criticar os panelaços que se alastram pelo país toda vez que Dilma ou o ex-presidente Lula se dispõem a dar as caras na TV. Sem um único gesto de solidariedade aos companheiros que, nesse momento, respondem na cadeia às acusações de corrupção, o programa mostrou um partido disposto a partir para o ataque para tentar reverter os 71% de rejeição apontados pela mais recente pesquisa de popularidade do instituto Datafolha. O resultado, conforme martelado com insistência ao longo da semana passada, é pior do que o obtido por Fernando Collor de Mello nos dias anteriores ao impeachment. O cenário está ruim demais para zombarias desse tipo.

Tudo como antes

Só para não perder a piada, é bom lembrar que a combinação dos algarismos 7 e 1 numa mesma manchete não traz boas recordações – e que os brasileiros se ressentem até hoje da última vez em que eles apareceram juntos num placar. Mas, como o assunto é sério, convém não misturar os 7 a 1 de Felipão com os 71% de Dilma, esses, sim, capazes de expor uma crise que marqueteiro nenhum é capaz de esconder. Se o programa do PT terá sucesso e se o cenário cor de rosa desenhado pelo partido em seu programa será capaz de camuflar uma situação econômica que impõe ao brasileiro dificuldades cada vez maiores, só o tempo será capaz de dizer. O certo, porém, é que o caminho que o Planalto insiste em percorrer já mostrou os resultados que é capaz de produzir e nenhuma ação do governo indica a intenção de mudar.

Mudanças virtuosas?

Ao insistir em jogar a culpa pelo revés da economia no cenário internacional e ao tentar transferir para a oposição a responsabilidade por manter o país num clima permanente de disputa eleitoral, o governo queima os poucos cartuchos que lhe restam num movimento que, em lugar de resolver, tem tudo para aprofundar a crise política. Neste momento, ainda resta à presidente Dilma algum cacife para promover mudanças virtuosas e, talvez, resolver os problemas que nenhum brasileiro (por maior rejeição que sinta pelo PT) gostaria de estar revivendo. Mas, pelo andar da carroça, o governo não mudará e continuará fazendo tudo exatamente como fez até aqui. O que nos permite concluir que o resultado será igualmente desastroso.

Fonte: Hoje em Dia, 09/08/2015.

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