Os ajustes necessários nos Estados Unidos e na China, por Paulo Guedes

As eleições presidenciais americanas e a mudança de guarda na política chinesa são acompanhadas com enorme interesse em todo o mundo. Há importantes ajustes a realizar nessas economias que independem de correntes políticas eventualmente no poder. A melhor forma de entender a grande crise contemporânea é como a fase de correção de uma Era dos Excessos. Uma parada para conserto, um freio de arrumação.

Os democratas americanos pensam em aumentar impostos, e os republicanos em cortar gastos públicos. À frente de ambos está o “abismo fiscal”. Terão de saltar sobre ele, restando apenas uma discussão dos meios de fazê-lo. A irresponsabilidade dos financistas e a cumplicidade das autoridades resultaram em bolhas em série, seguidas pelo Grande Resgate, a maior operação de socialização de perdas financeiras já ocorrida na história, que ainda será paga pelos contribuintes por décadas.

A mesma exigência de correção dos excessos se impõe à China. O Partido Comunista Chinês usou como alavanca de crescimento a integração competitiva do país à economia mundial. Os mercados globais foram o grande mecanismo de inserção social dos trabalhadores chineses. O extraordinário sucesso econômico permitiu que prosseguisse lentamente, em ritmo quase imperceptível, a abertura política. A taxa de poupança da China é extraordinariamente alta. Permite o financiamento de maciços investimentos públicos em infraestrutura. Permite também a geração de um excesso de oferta que transborda para os mercados globais por meio das exportações.

A contenção do consumo interno chinês permite que a produção local se destine à fabricação de máquinas, equipamentos, bens de capital, instalações industriais, bem como à construção de aeroportos, ferrovias, portos, rodovias, usinas hidrelétricas, linhas de transmissão e redes de distribuição de energia. O sucesso chinês baseou-se, portanto, na capacidade de um regime politicamente fechado implementar, por décadas, um vertiginoso ritmo de investimentos, gerando empregos e ampliando a produção em busca dos mercados globais.

A melhor forma de entender a atual crise é uma parada para conserto, uma freada de arrumação

A desaceleração da economia global e a guerra mundial por empregos revelam os limites da estratégia chinesa. O eixo de sustentação de sua economia terá de ser cada vez mais o consumo interno. A China terá de explorar as formidáveis dimensões de seu próprio mercado de consumo de massas. Terá de efetuar a difícil transição de uma plataforma de exportação, construída à base de um ritmo de investimento forçado, para uma dinâmica própria de crescimento, baseada num colossal mercado de consumo interno. A forte desaceleração do ritmo de crescimento chinês sob o impacto da crise global deverá se manter com a transição do modelo de “investimento forçado” para o modelo de “ampliação do consumo”.

Enquanto a China deve ampliar seu consumo interno para gerar empregos, o Brasil tem de expandir investimentos para sustentar o crescimento. Curiosamente, o que há de excesso num país é o que falta no outro. O Brasil parece movido a consumo corrente, gastos públicos com pessoal e transferências de renda. Somos, por falta de investimentos, prisioneiros da armadilha social-democrata de baixo crescimento. O aumento de consumo à base de crédito e bolsas governamentais estimula expansões cíclicas de fôlego curto, mas não o crescimento econômico de longo prazo.

Os investimentos privados estiveram contidos por duas décadas de juros excessivamente elevados, baixas expectativas de crescimento e marcos regulatórios inadequados. Mesmo os investimentos governamentais em infraestrutura acabaram comprimidos a níveis irrisórios nos orçamentos públicos, pelas despesas com juros sobre a dívida, salários e aposentadorias do funcionalismo, subsídios e transferências de renda. Da mesma forma que a China precisa ampliar seu consumo interno, para compensar os efeitos da desaceleração econômica global sobre suas exportações e sua engrenagem de geração de empregos movida pelo comércio internacional, o Brasil tem de expandir seus investimentos em educação, infraestrutura e logística, para transformar uma expansão cíclica à base de crédito ao consumidor e transferências de renda num crescimento econômico sustentável.

Na América Latina, os países trilham caminhos diversos ante a grande crise contemporânea. De um lado, no cinturão do Pacífico, estão Chile, Peru, Colômbia e México. Transformando a crise em oportunidade, aprofundam reformas de modernização, mergulham suas economias nos mercados globais e se integram competitivamente à nova ordem mundial. De outro lado, estão Cuba, Venezuela, Bolívia, Equador e Argentina, na equivocada rota de sociedades política e economicamente fechadas. Do trágico peronismo do século XX ao socialismo bolivariano do século XXI, acumula-se a evidência empírica de um grande desastre causado por ideologias obsoletas.

Enquanto peronistas e bolivarianos retrocedem, capturados por uma inadequada visão de mundo, o Brasil segue devagar na direção certa. Democracia, ainda que emergente. Mercados, ainda que imperfeitos. Estado de direito, embora cego muitas vezes. Redes de solidariedade social, ainda que precárias. Imprensa livre, mesmo que entre a cenoura e o chicote dos poderes político e econômico. Moeda decente, apesar das indefinições dos regimes monetário e fiscal. Marcos regulatórios em construção, embora ainda instáveis.

Sob esse olhar, há uma dimensão histórica no julgamento do mensalão. O impeachment de Collor, há 20 anos, foi um momento de afirmação do Congresso, com a demarcação da independência do poder Legislativo. Da mesma forma, os ministros do Supremo Tribunal Federal estão agora demarcando a independência do poder judiciário, pela condenação da compra de apoio parlamentar por representantes do Poder Executivo. Enquanto isso, seguimos em nossas rotineiras eleições municipais. Os países colhem prosperidade ou pobreza de acordo com as instituições que plantam. O Brasil prossegue na longa estrada de melhoria institucional que conduz à Grande Sociedade Aberta.

Fonte: revista Época

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