Os cadáveres tributários do novo governo

O ideal seria adiar o início do governo Dilma para depois do Carnaval. São muitos cargos para dividir entre os companheiros, e ainda falta a parte mais chata, que é passar da fanfarra eleitoral para a agenda administrativa. É muito sacrificante passar meses em cima do palanque, empenhar milhões e milhões de reais em propaganda mitológica e depois ainda ter de governar. É claro que não deu tempo de pensar nessa parte.

Com a agenda administrativa em branco, vai-se assistindo ao festival de antinotícias. Entre as mais impactantes estão os convites da presidente eleita a vários ministros de Lula para permanecerem onde estão – aí incluídos o ministro da Fazenda e o presidente do Banco Central. Fernando Haddad, o homem do Enem, também está no grande projeto nacional do “deixa estar para ver como é que fica”. Só falta Dilma soltar o brado feminista “eu sou uma só!” e convidar Lula para continuar tocando o barco até fevereiro. Já que o novo governo nascerá com a cara do velho – numa espécie de síndrome de Benjamim Button –, nada mais adequado do que fazer a transmissão da faixa na Quarta-Feira de Cinzas.

Mas nem tudo poderá ficar para o final do verão. O governo Dilma pode não ter ideias, mas já tem compromissos. O principal deles, como se vê nas reuniões de transição, é preservar a gastança pública. Por isso a primeiríssima medida mencionada após o conto de fadas eleitoral foi a volta da CPMF. Esses R$ 40 bilhões do famigerado imposto bancário são essenciais para a saúde – pelo menos a do PT e de seus sócios palacianos.

O projeto Brasil de Dilma promete eficiência na exumação de cadáveres tributários: vem aí também o fim da correção da tabela do Imposto de Renda – aquela medida esperta que garfa a pessoa física sem ela notar, com o congelamento da faixa de isenção. Mais alguns bilhões no cofre, sem alarde.

É tudo compreensível. O show tem de continuar, até porque 2014 vem aí, e a mística do governo bonzinho precisa continuar de pé. Pensando nisso, Dilma já anunciou para 2011 um aumento para o Bolsa Família acima da inflação. Às favas com a responsabilidade fiscal (o povo não sabe o que é isso mesmo). Que mal pode haver num gatilho aqui, outro ali, para salvar o pobre da ortodoxia monetarista? E, se os indicadores começarem a piorar, sempre se pode adotar a saída da companheira Kirchner, que amordaçou o IBGE deles. O que os olhos não veem, o bolso não sente.

O governo Dilma pode não ter ideias, mas já tem compromissos com a gastança pública.

Há também planos para mudar o cálculo do salário mínimo, ampliando o reajuste em 2011. Faz sentido. A nova mãe dos pobres não pode estrear com um 1o de maio magro. Que assim seja, desde que não falte para o restante da festa. Na reunião do Conselho Político, a ordenha do Orçamento foi debatida com delicadeza. O deputado goiano Sandro Mabel, líder do PR na Câmara, expôs sua visão pessoal:

“Acho que nós precisamos ter dinheiro de investimento também. Eu, particularmente, toda vez que aumentar o salário mínimo sou beneficiado. Apesar de pagar um pouco a mais, o pessoal come mais biscoito. Então é bom”.

De fato, se o povo estiver comendo mais biscoitos Mabel, não haverá com que se preocupar, desde que os brioches dos políticos e dos burocratas estejam garantidos. É por isso que, na mesma reunião, ganhou força mais uma plataforma do novo governo: a legalização dos bingos. O conselho da ordenha estima em R$ 7 bilhões a arrecadação com esse jogo simpático, que além de tudo costuma ser útil à lavagem de dinheiro.

E pega bem para um governo que faz tudo pelo social ficar incentivando a jogatina? Esse problema também já foi resolvido, como resumiu o próprio Mabel: “Podemos dar um presente para a Saúde com essa questão do bingo”.

Pronto. Com os bingos financiando a Saúde, a CPMF poderá até financiar os brioches. O resto fica para depois do Carnaval, que ninguém é de ferro.

Publicado na Revista “Época”

RELACIONADOS

Deixe um comentário

2 comments

  1. Um governo tampão, é isso que parece.
    Pro Lulla voltar candidato em 2014.

  2. Sérgio Neto

    Essa resenha do Guilherme Fiuza não podia ser mais atual. O que me preocupa é o silêncio do povo. Essa inércia me deixa nervoso e preocupado. Vejam só um político eleito pelo povo pensando no seu próprio umbigo. Aliás, são poucos, pouquíssimos, raros que pensam ao contrário e honram o nosso voto.