Nada no mundo ocorre ao acaso, dizem os pensadores tribais e arcaicos. Na grande maioria das culturas tribais ou pré-modernas não há fatos naturais, mas apenas fatos morais. Se um sujeito arrebenta o pé numa topada, a ferida inflama e o mata, todos aceitam – como ensinou um antropólogo genial, E.E. Evans-Pritichard, nos anos 30 – que a topada é a causa imediata e indiscutível da ferida, mas o fato de aquela pessoa ter dado aquele fatal tropeço é obra do feitiço feito por seus inimigos. Os acidentes nos atingem por acaso, mas somos vitimados por obra de algum malefício. Tal teoria não difere muito das idéias conspiratórias, esse apanágio dos radicalismos modernos, nos quais, existem sempre motivos e forcas ocultas por trás das causas próximas.

A resistência ao acaso ou, como dizia Lévi-Strauss, a incompatibilidade de raiz entre o evento e a ordem significa que aquele conjunto de regras e instituições que gerenciam uma dada sociedade deve ser preservado e mantido.

Quantos de nós, etnólogos, não testemunhamos a lealdade de grupos tribais aos seus valores tradicionais, mesmo quando corriam o risco de desaparecer? Entre mudar e permanecer, há um espaço complexo, mesmo quando todas as cartilhas apontam para uma direção indiscutível.

Quando clamamos por mudanças radicais, quase sempre assumimos a perspectiva dos sepulcros caiados e, com o rabo de fora, julgamos os fatos e realizamos as críticas como se fôssemos estrangeiros. Fácil falar e se indignar com o ‘como deveria ser’ que, na realidade, faz parte da própria questão ou problema. Disso faz prova a nossa imensa sensibilidade para os elos que ligam gente dentro e fora do poder, e a nossa grosseira insensibilidade para o bom senso capaz de prevenir desonestidades ou falcatruas dos governantes. Assim, acusamos mais os intermediários do que os mandantes e, no processo, deixamos inteiramente de fora os gerentes da administração pública que, por sua vez, acusam conosco o sistema. Com isso, de acusação em acusação, vamos blindando a nossa impermeabilidade para a mudança.

Não deve ser, pois, ao acaso, que repetimos o nosso imutável destino de negatividades, dizendo que ‘não temos mesmo jeito!’ e que o ‘Brasil não tem conserto’. O teorema da imutabilidade revela não só a necessidade imperiosa da mudança que pode chegar ou não, mas indica que as mudanças mais afetivas chegam devagarzinho, mostrando timidamente as unhas bem tratadas antes de revelar suas feias garras.

Nesta nossa América Latina, o neoliberalismo tem sido um provocador de reações. Dir-se-ia mesmo que tem sido o maior fator de mudança de nossa história pois, com ele, a obediência às regras do mercado e da estabilidade monetária são um horrível limitador do poder do Estado, cujos governos embora o usem como fiador eleitoral, tratam-no com conhecida ambigüidade, tachando-o ora de ‘herança maldita’ ora de um apêndice do imperialismo de Washington.

O fato concreto, entretanto, é que a institucionalização do mercado tem três conseqüências: (a) a simplicidade das regras de governabilidade; (b) a demanda de uma intolerável eficiência; e (c) a possibilidade de desnudar os ralos do sistema. Com todos os seus defeitos, o neoliberalismo aproximou, pela estabilidade da moeda, povo e Estado. Ora, esse tirar do governo as razões que o povo desconhecia é o que chamo de ‘moinho satânico do mundo liberal’. Aliado a uma imprensa livre, ele tem levado toda sorte de problemas para os ‘donos do poder’ na justa expressão do grande Raimundo Faoro (é ético citar os descobridores). Entre elas, a independência do Banco Central, as ações da Polícia Federal que indicia até a família do presidente; e a de uma imprensa que usa a transparência de uma ‘cultura do mercado’ para levantar tabus. O maior deles sendo, no momento, o de forçar um senador a provar que é rico. Algo detestável para uma classe cujo emblema maior é de renunciante do mundo e de modestos amigos do povo sofrido e pobre deste país.

Finalmente, essa liberdade requerida pelo mercado permite enxergar a coerção autoritária no nascedouro. De um Chávez que fecha canais de televisão, a de um PT e de um Lula que, quando tratam de banalizar a agressão do presidente venezuelano à democracia liberal, começam a desenhar os primeiros filhotes de rinocerontes e gorilas que, espera-se, não cheguem a crescer e proliferar como já ocorreu neste nosso País.

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