Os financistas contra os industrialistas

Houve um tempo em que todas as grandes guerras eram religiosas. Com o advento do capitalismo industrial, do nacionalismo e do socialismo, “os reais e mais profundos antagonismos são agora ideológicos”, afirmou Werner Sombart em seu clássico Mercadores e heróis (1915). Ele escreveu em meio aos primeiros eventos da Primeira Guerra Mundial, anunciada como “a grande guerra para acabar com todas as guerras”. “As disputas entre Rússia e Turquia pelo Estreito de Dardanelos, entre França e Alemanha pelas regiões da Alsácia e da Lorena, entre austro-húngaros e russos pela hegemonia nos Bálcãs são apenas periféricas. A verdadeira guerra é o choque da civilização mercantil europeia contra a cultura guerreira germânica. É uma guerra entre duas visões de mundo, é um choque entre as ideologias de comerciantes e guerreiros”, disse Sombart.

Eram muito diferentes as duas visões de mundo. De um lado, os ingleses, o mundo da produção e do comércio, do dinheiro e do conforto material. De outro lado, os alemães, o mundo do heroísmo e da guerra, da bravura e da glória. “A guerra é fundamentalmente das práticas e convicções do povo inglês contra a incomparável superioridade dos sentimentos e do espírito germânicos”, dizia Sombart.

As batalhas contemporâneas desenrolam-se no campo econômico. Há, também aqui, distintas visões de mundo. Americanos e ingleses tornaram-se “financistas”, enquanto alemães e chineses permanecem “industrialistas”. A desaceleração econômica global e a guerra mundial por empregos são atribuídas aos excessos dos financistas, com sua visão de mundo capaz de levar ao caos a civilização ocidental. “Esta crise expôs profundas deficiências morais em nossa sociedade. Os financistas levaram vantagem sobre muitas pessoas”, escreve o prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz, em Queda Livre: América, livre mercado e o naufrágio da economia mundial (2010). “A confiança foi perdida. Sua irresponsabilidade quase colocou abaixo o sistema econômico e financeiro mundial. Será difícil perdoar o desvio moral dos operadores financeiros em sua exploração dos pobres e da classe média americana. Os financistas descobriram que havia dinheiro na base da pirâmide – e tudo fizeram para o transferirem ao topo. O colapso do sistema bancário teve custo extraordinário para a economia, os contribuintes, os trabalhadores desempregados e os compradores de casa própria, agora endividados.”

Os financistas, diz Stiglitz, receberam “régios pagamentos” a título de incentivos e compensações, “sem nenhuma responsabilidade pelos custos impostos à população por sua falência”. Ele estende sua condenação às autoridades monetárias: “Os bancos centrais acreditaram ingenuamente que poderiam promover uma enxurrada de liquidez enquanto a inflação permanecesse baixa, confiantes de que tinham tudo sob controle. Mas não era o que ocorria. A inundação de liquidez provocou bolhas de preços em ativos imobiliários e nas Bolsas, cujo estouro acabou derrubando o sistema financeiro e a economia global”.

Não há mais dúvida de que a visão de mundo dos financistas modernos tornou-se uma ameaça de desintegração da economia mundial. As economias de mercado são regimes fiduciários, que foram abalados pelos abusos dos financistas – e os riscos excessivos não foram ainda removidos. “As condições que criaram a crise financeira e a recessão global de 2007-2009 podem trazer outra crise, e, novamente, milhões de pessoas vão perder seus empregos e suas casas. Serão exigidas novas e colossais transferências de riqueza dos contribuintes para os financistas. Afinal, o confronto entre a concentração de poder financeiro e um governo democraticamente eleito é tão antigo quanto a própria república americana”, afirmam S. Johnson e J. Kwak, em Treze banqueiros: a captura de Washington por Wall Street e o colapso financeiro (2010). Para os autores, durante esta época de excesso de riscos e lucros fabulosos, “os banqueiros assumiram a Casa Branca e o Tesouro, a ideologia de Wall Street capturou Washington”.

A prosperidade de um país, na verdade, é apenas outro nome para a produtividade de sua população

Sob a chantagem de ser “grandes demais para falir”, travestindo de proteção à propriedade privada a garantia dos fundos que aplicaram irresponsavelmente, os bancos se salvam com recursos públicos quando o sistema financeiro é ameaçado por contágio e quebra em cadeia. O resultado, escrevem os autores: “Durante os últimos 30 anos, os bancos e Wall Street tornaram-se uma das mais ricas indústrias da história americana e uma das mais poderosas forças políticas em Washington”.

Essa discussão entre visões de mundo é também relevante para a economia brasileira. O sonho da casa própria é uma aspiração legítima das classes médias emergentes. A democratização do acesso ao crédito é uma importante ferramenta das modernas democracias liberais. Mas é fundamental evitar os excessos dos financistas, como os praticados nos Estados unidos. É uma ilusão acreditar que basta dar crédito para garantir a prosperidade.

A prosperidade de um país, na verdade, é apenas outro nome para a produtividade de sua população. A expansão do crédito a uma classe média emergente deve estar las-treada em aumentos de produtividade dos trabalhadores, sob pena de ter fôlego curto. Não queremos que a Caixa Econômica Federal tenha o mesmo desastroso destino que as instituições financeiras americanas especializadas em crédito imobiliário, Fanny Mae e Freddie Mac, que acabaram quebrando.

A visão de mundo dos industrialistas nos traz um importante alerta. Alemanha e China são modernos gigantes industriais, economias dominantes da nova ordem global. Sua competitividade industrial tem por base o incessante aumento de produtividade. São uma demonstração da importância do investimento maciço em educação e treinamento, ampliando capacitação e habilitação de sua mão de obra, para sustentar o aumento contínuo dessa produtividade. Mais que apenas mercados de consumo de massas, baseados no crédito fácil dos financistas, são verdadeiros mercados de produção em massa, baseados no investimento em educação. O capital humano de qualidade, e não as torres de papel dos financistas, é a garantia de maior produtividade, mais empregos, melhores salários, competitividade industrial e prosperidade.

Fonte: revista “Época”

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