Os intelectuais e o mito da revolução total

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Numa coisa eu sempre me engano. Sempre imagino já ter visto toda a leviandade, todos os desvarios e toda a covardia dos intelectuais de esquerda latino-americanos, mas eles, volta e meia, surpreendem-me. O último foi Atílio Borón, um decano da sociologia política argentina. Dias atrás, segundo informação publicada em 30 de maio pelo jornal “El Clarín”, de Buenos Aires, Borón conclamou o ditador venezuelano Nicolás Maduro a colocar as Forças Armadas na rua a fim de “aplastar” (esmagar) a oposição.

No momento em que Borón fez tal apelo, o número de vítimas fatais, segundo El Clarín, “ascendia a mais de 60 — em sua maioria jovens e estudantes, mortos pelas forças de segurança e por grupos paramilitares”.Por trás desse inominável desvario está o mito da “revolução total”, que tive oportunidade de estudar no terceiro capítulo de meu livro “Liberais e antiliberais – a luta ideológica de nosso tempo” (Companhia das Letras, 2016). Trata-se de uma combinação de conhecidas falcatruas filosóficas. Primeiro, o ideólogo se apresenta como portador de capacidades extraordinárias — entre elas, conhecer de antemão o curso da história e, em consequência, a de conduzir a humanidade a um paraíso terrestre. Mas para tanto ele postula que a sociedade precisa ser revolucionada de alto a baixo, de forma abrupta e radical, a fim de eliminar pela raiz todos os conflitos sociais. Desse processo de destruição nascerá uma sociedade totalmente transparente e integrada. Todos os indivíduos se identificarão com seus novos valores e a felicidade reinará em definitivo.

No Brasil, da mesma forma, esse anseio romântico povoa a imaginação de numerosos intelectuais, professores e estudantes universitários, e de não poucos padres e políticos. Num artigo intitulado “As ruas e as urnas” (FSP, 1º/6) um ex-ministro petista entoou a mesma cantilena, não descurando sequer da ameaça velada comum em seus textos. A revolução — ele escreveu —virá “…sob a proteção de um novo pacto constitucional, originário das urnas, se a casa-grande voltar ao leito da democracia. Pela força rebelde das ruas, se nossas elites continuarem de costas para a nação”. Pelo visto, José Dirceu nada esqueceu e nada aprendeu desde seus tempos de líder estudantil.

Fonte: “Isto é”, 9 de junho de 2017.

 

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