Os investimentos são a resposta para o crescimento econômico?

Nem sempre.

No artigo anterior, demonstrei que o consumo não deve ser considerado o motor de uma economia. No máximo, seria a direção. O combustível que alimenta o processo de produção econômica seriam os investimentos e a poupança.

Logo, seria possível chegar a uma conclusão: para estimular o crescimento econômico, deveríamos voltar nossos olhos para o investimento e a acumulação de capital. Certo? Novamente: calma, não julgue tão rápido assim.

O crescimento econômico depende, é claro, da acumulação de capital, isto é, da acumulação de recursos, bens, trabalho, máquinas e conhecimento que possibilitem a produção. Mas não basta, por exemplo, um país montar um parque industrial e construir uma infraestrutura para que uma economia cresça. Não são todas as combinações de investimentos que irão trazer bons resultados.

No livro “O espetáculo do crescimento”, o economista William Easterly comenta o caso de Gana, país na África Ocidental. Na década de 1950, depois de conquistar a independência do Reino Unido, os ganenses puderam desfrutar de variados investimentos em sua economia. O principal deles foi a construção de uma hidrelétrica, a represa de Akosombo, no Rio Volta, para suprir energia à incipiente indústria de fundição de alumínio.

Uma vez que a indústria estivesse em operação, esperava-se que novo complexo pudesse também se desenvolver. Além da fundição de alumínio, previa-se a mineração de bauxita, utilização de óxido de alumínio em outros processos de produção, a construção de nova planta de soda cáustica e, claro, melhorias na infraestrutura do país para escoar a produção, principalmente por meio da construção de ferrovias.

Não basta a um país investir na criação de um parque industrial para que sua economia cresça

Na década de 1980, não havia mina de bauxita, ou refinaria de alumínio, ou planta de soda cáustica, ou ferrovias em Gana. As pessoas que viviam perto da represa, incluindo as mais de 80 mil que tiveram suas velhas casas desapropriadas e inundadas, sofriam de doenças transmitidas pela água, como ancilostomíase, malária e esquistossomose. Em 1983, a renda per capita do país era menor do que na época da independência. Dez anos antes, os ganenses sofreram grave crise de fome.

A história de Gana ensina que investimentos na produção não garantem, por si só, crescimento econômico. O economista William Esterly descreve essa crença como “fundamentalismo do capital”, ou seja, a ideia de que o crescimento econômico será basicamente influenciado por meio da acumulação de capital (máquinas, indústrias, prédios, estradas, portos, ferrovias, navios, etc.).

Não basta a um país investir na criação de um parque industrial para que sua economia cresça. De nada adianta, por exemplo, aumentar o número de máquinas, se não há trabalhadores capacitados para operá-las. Afinal, não são todas as combinações de investimentos que irão resultar em maior produção.

O fundamentalismo do capital – ou fundamentalismo do investimento – parte da ideia de que basta jogar dinheiro em um problema para ele desapareça. Quantas vezes você já ouviu que faltam investimentos na educação no Brasil? O Brasil, porém, investe 5,7% do seu PIB em educação – a frente de Reino Unido, Canadá e Alemanha, por exemplo.

Um dos principais problemas do país, portanto, não é falta de investimentos nesse setor, mas a dificuldade de combinar esses investimentos para obter melhores resultados. Não adianta nada construir novas salas de aula, por exemplo, se não há novos professores. Da mesma forma, não adianta contratar novos professores sem a infraestrutura necessária para ministrar aulas.

O crescimento econômico pode advir, é claro, do aumento na quantidade de insumos disponível para a produção. Isso é evidente aos olhos de qualquer viajante. Em países ricos, há aeroportos acomodando grandes aviões, fábricas enormes, campos irrigados, eletrodomésticos, computadores e distintos bens à disposição da população. Mas, para crescer de modo sustentável no longo prazo, não basta apenas aumentar insumos e torná-los mais acessíveis à população: é necessário que esse capital seja utilizado de modo eficiente. Daí vem outra importante fonte do crescimento: os aumentos na produção por unidade de insumo, o que também se confunde com o aumento da eficiência produtiva.

Imagine que um fazendeiro contrate dez novos trabalhadores para a colheita de sua safra. Espera-se que a produção aumente. Afinal, haverá mais gente para colher o produto. Mas caso o fazendeiro contrate mais dez, vinte ou trinta trabalhadores, sua produção não irá aumentar nas mesmas proporções. Chega o momento em que os retornos obtidos com as contratações de novos trabalhadores diminuem. Quando essa fronteira é atingida, o único caminho para continuar a crescer é o aumento da produção por cada trabalhador já empregado.

Mas a mão de obra é apenas um entre vários insumos. Um homem com uma escavadeira consegue cavar um fosso mais rapidamente do que outro com apenas uma pá, mas não será necessariamente mais eficiente. Ele apenas dispõe de mais capital com que trabalhar. É por isso que, na economia, a análise do crescimento econômico deve levar em consideração o que se conhece como “produtividade total dos fatores”: a relação entre todos os insumos mensuráveis e a taxa de crescimento da renda nacional.

Essa análise não configura-se como um mero exercício acadêmico. Por meio dela, é possível chegar a importante revelação sobre o processo de desenvolvimento econômico: o crescimento sustentado de renda per capita de uma nação só poderá ocorrer se houver aumento na produção por unidade de insumo.

Nos países de desenvolvimento precoce, como EUA e Austrália, avanços tecnológicos nos últimos 150 anos levaram a aumento contínuo da produtividade total dos fatores, isto é, aumento contínuo de renda nacional por cada unidade de insumo. Sem o aumento na eficiência com que esses insumos são usados, uma economia está inevitavelmente sujeita a retornos decrescentes. O crescimento baseado apenas no aumento da quantidade de insumos é insuficiente e limitado.

Analisar a demanda para ver quais combinações de investimentos as pessoas precisam é uma tarefa custosa, mas que faz parte do ofício dos empreendedores. Nem todos os investimentos irão gerar bons resultados. Vários irão fracassar, alguns irão suceder. Investir, e transformar capital em educação, saúde, moradia, lazer, é um processo permeado por tentativas e erros, porém resulta em melhorias econômicas quando bem-sucedido.

No próximo artigo, demonstrarei os limites do crescimento econômico promovido por meio dos gastos do governo.

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