Sabe aquela compra em três vezes sem juros? Pois é, tem juros, como todo mundo sabe, e mais, como poucos sabem, uma taxa de financiamento que o banco paga à loja como comissão por esta ter arranjado o negócio. Esse ganho financeiro é maior do que o obtido na operação propriamente mercantil, de venda no varejo. Tanto é assim que as lojas se recusam a fazer o negócio à vista, descontando o custo financeiro, pela simples e boa razão de que embolsam parte disso.

Também as revendedoras de veículos obtêm importante fatia de sua margem de lucro na comissão que recebem dos bancos. Obviamente, em todos esses casos, tais custos vão para o bolso do consumidor.

Trata-se de uma distorção, resultante da era da inflação e dos juros muito elevados. Com a hiperinflação, supermercados, por exemplo, compravam a 10 e vendiam a 9, pelo que não recolhiam impostos como o ICMS, cobrado sobre a margem do lojista. Podiam fazer isso porque pagavam a seu fornecedor a prazo e recebiam à vista, em dinheiro, que era imediatamente aplicado no mercado financeiro. Dava muito mais e era muito mais fácil do que ser eficiente e lucrativo na venda no varejo.

Por isso, muitos supermercados quebraram quando acabou essa farra. É difícil comprar bem e oferecer preços competitivos ao cliente. Não é fácil prestar bom atendimento e ganhar dinheiro no negócio propriamente dito.

Bancos também quebraram, inclusive os estatais. Era fácil obter lucros pegando o dinheiro dos clientes, especialmente o que ficava parado na conta, ainda que fosse apenas por uma noite, e aplicando nos títulos do governo que chegavam a pagar juros de mais de 2% ao dia! Sem isso, o negócio bancário ficou mais difícil. Foi preciso ser eficiente na operação de captar e emprestar dinheiro.

Agora que os juros chegaram ao nível mais baixo da era do Real, essa tendência se reforça e atinge todos os setores da economia. Com juros muito elevados, uma diferença de pontinhos aqui e ali não afeta o preço final. Mas com inflação de 4,5% ao ano e juros cada vez menores, o consumidor aprende a dar valor a um desconto de dois ou três pontos percentuais.

Juros e comissões incluídos no preço tornam-se relativamente cada vez mais pesados, especialmente quando o consumidor sabe. Regras de transparência, que são inevitáveis, mostrarão a decomposição dos custos e o consumidor não vai gostar de pagar uma comissão de financiamento para a loja de camisas ou a revendedora de veículos.

Outras coisas mudarão. Existe uma regra que obriga o lojista a cobrar o mesmo preço à vista ou no cartão. Não faz sentido. A compra no cartão tem o custo que se paga à administradora do cartão e ao banco que financia. À vista, esse custo cai e a mercadoria tem de ficar mais barata. A regra do preço igual protege as administradoras de cartão, os bancos e o lojista que consegue passar esse custo para o consumidor. E impede a competição por preço menor.

A economia brasileira, conquistada a estabilidade macroeconômica, torna-se cada vez mais normal. A tendência é de juros cada vez menores, aproximando-se dos níveis internacionais. O Brasil não é diferente dos demais países. Os juros hoje ainda são mais altos aqui porque o Brasil foi o último dos países importantes a acabar com a inflação e estabilizar sua economia. A passagem pela crise, com recessão e perda de empregos, mas sem quebra e com rápida recuperação, foi a demonstração que faltava da força da estabilização.

E a indicação de que precisamos agora de uma nova agenda. Quando o supermercado ou a concessionária de veículos ou o próprio banco têm de ganhar dinheiro na diferença entre compra e venda, um ou dois pontos a mais no imposto farão diferença. Reduzir a carga tributária ganha prioridade. Assim como desregulamentar o ambiente de negócios. É evidente que deve ser uma decisão do lojista e seu cliente fazer o negócio em três vezes, à vista ou no cartão. O que a lei precisa garantir é informação. E deixem que as pessoas negociem.

(O Globo – 17/09/2009)

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