“Top, top.” O gesto obsceno do assessor especial da Presidência Marco Aurélio Garcia se inscreve na mesma ordem de coisas que o “relaxa e goza” da ministra Marta Suplicy, com o qual compartilha a obsessão pelo ato sexual e a vulgaridade sem álibi dos bem-nascidos e bem instruídos. Essas manifestações icônicas de um tempo e de um governo revelam, no plano formal, o que eles pensam da Nação. Mas seus conteúdos também são esclarecedores.

A ministra escolheu a linguagem do meretrício para dizer que os cidadãos devem renunciar aos seus direitos, inclusive o de protestar, sublimando como fatalidade aquilo que decorre das ações e omissões do governo. O assessor presidencial usou o mesmo registro para celebrar uma notícia que supostamente desviaria os olhares dessas ações e omissões. Esse homem pragmático, um aparatchik da nova elite lulo-petista, não se preocupa com duas centenas de mortos e, como seu chefe, converteu a imagem pública do governo na sua prioridade absoluta.

Mas essa é a moral dele, não a nossa. O interesse público exige uma nítida identificação de responsabilidades, que não se confunde com atribuição de culpa. Os culpados pela tragédia de Congonhas só serão conhecidos por meio da investigação técnica do acidente. Os responsáveis estão à vista de todos.

Quando os bombeiros ainda lutavam nos escombros, o presidente da TAM, Marco Antonio Bologna, afirmou que o Airbus decolou de Porto Alegre “em perfeitas condições”. A mentira foi desvendada no dia seguinte, com a apuração, pelo Jornal Nacional, de que um defeito no reversor da aeronave havia sido identificado dias antes. Os passageiros freqüentes da TAM (como os da Gol) sabem que a mentira é a norma na relação das duas empresas do cartel dos ares com o público. O modelo de “lotação aérea” criado pelos duopolistas se assenta sobre a fraude permanente dos contratos de transporte. TAM e Gol mentem todo o tempo, sobre horários, atrasos, cancelamentos e overbooking. Agora se sabe que o presidente da TAM mente também nos assuntos de vida e morte dos passageiros de sua empresa.

Bologna aprendeu que a mentira é a regra do jogo com o governo que protege o seu negócio fraudulento. Ao longo de quase um ano de caos aéreo, o governo utilizou-se dos métodos reivindicatórios intoleráveis dos controladores de vôo para montar o que lhe pareceu ser o álibi perfeito. À sombra dos sargentos, tentou-se ocultar o aparelhamento político da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e da Infraero. A primeira tornou-se cúmplice das empresas que deveria fiscalizar, pregando um selo oficial de aprovação sobre um sistema hostil aos direitos dos passageiros e aos interesses da sociedade. A segunda direcionou os investimentos públicos para obras suntuosas e suspeitas, enquanto ignorava as necessidades óbvias de segurança de vôo.

O jogo da mentira começou a ser desvendado na hora da tragédia com o vôo da Gol. Mas as circunstâncias singulares do acidente proporcionaram ao governo uma saída tão imoral quanto eficiente, que foi a atribuição de toda a culpa aos pilotos americanos. O ruído infernal da patriotada cobriu as vozes dos controladores de vôo, que antes de sucumbirem à irresponsabilidade tentaram emitir um sinal de alerta.

O fogo da pira acesa em Congonhas calcinou duas centenas de pessoas, mas iluminou a paisagem inteira que, na sua arrogância monumental, o assessor especial de Lula ainda pretende esconder. Os passageiros do Airbus da TAM não podiam saber que embarcavam num avião em condições imperfeitas de segurança – mas isso não é nada incomum, segundo se depreende das declarações do presidente da TAM. A aeronave sem reversor pousou numa pista molhada e escorregadia, ainda carente de ranhuras – mas isso não é nada incomum, pois a Infraero libera aterrissagens em pistas consideradas inseguras pelos pilotos. Quanto falta para qualificar como assassinato isso que se está denominando acidente?

Enquanto os familiares tentavam encontrar seus mortos, Lula permaneceu mudo. Quando finalmente saiu de sua toca, foi para oferecer um cardápio desconjuntado de promessas oportunistas, alinhavadas exclusivamente pelo propósito de resgatar a sacrossanta imagem pública de seu governo. No seu discurso, o presidente mencionou a necessidade acaciana de investigar as “causas” do morticínio, mas não pronunciou uma única palavra sobre as responsabilidades do governo, da Anac, da Infraero e das empresas aéreas. Quase ao mesmo tempo, Renan Calheiros, o aliado de todas as horas e de todos os presidentes, fazia uso de seu cargo para sabotar uma iniciativa do deputado Raul Jungmann, que solicitava o acompanhamento das investigações da tragédia por uma comissão parlamentar.

O governo cobre os seus, como sempre fez. A preservação dos burocratas periféricos, contudo, não é um dogma e suas cabeças podem ser entregues em bandejas de prata no curso do processo de administração da crise. No Palácio do Planalto, quando ainda ardiam as labaredas em Congonhas, já se tinha a consciência de que o fogo ameaçava consumir o que resta da credibilidade do próprio Lula. Essa consciência se expressou nas palavras angustiadas do ministro Walfrido dos Mares Guia, que repetia em transe o mantra segundo o qual “a culpa não é do presidente Lula”.

Flagrado pelas câmeras no seu gesto revelador, o homem do “top, top” procurou justificar-se alegando “indignação” com uma suposta “exploração política de um acontecimento dramático”. O seu sonho dourado, nessa hora difícil, coincide com o do presidente: trata-se de suprimir a política, substituindo-a pela investigação técnica. Em outras palavras, trata-se de cancelar o debate público sobre a sociedade de interesses entre os órgãos do governo e as empresas aéreas que emoldura a pira de sacrifício de Congonhas. É um dever cívico frustrar esse sonho. Em nome da memória dos mortos e dos direitos dos vivos.

(Publicado em O Estado de S. Paulo em 26 de julho de 2007)

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