Uma pesquisa recente trouxe a notícia de que dois em cada três brasileiros acreditam que a conquista da estabilidade se deve ao presidente Lula. O mesmo porcentual acredita em discos voadores. As pesquisas de opinião revelam tanto quanto ocultam. O presidente aderiu à estabilidade como estrangeiro naturalizado, de sotaque meio carregado, mas simpático e bonachão, dizendo-se “mais brasileiro” do que nós, pois se tornou brasileiro “por escolha”.

Não há nada a criticar na naturalização. O Brasil, assim como o bom senso, é uma nação hospitaleira. A estabilidade é para ser de todos. Ninguém pode ser excluído de seu legítimo desfrute, inclusive os que, no passado não tão longínquo, militaram contra ela. Tratando-se de naturalizados, todavia, esse desfrute há de ser comedido, a fim de que não se reproduza uma síndrome ilustrada por uma imagem muito usada por Machado de Assis para descrever homens dados a exageros inofensivos de suas posses e realizações. Diz-se que havia um cidadão ateniense que não tinha um tostão furado, mas estava convencido de que todos os navios que entravam no Pireu, o porto de Atenas, lhe pertenciam. Esse “opulento de barcos e ilusões”, segundo Machado, “não precisou mais para ser feliz. Ia ao porto, mirava os navios e não podia conter o júbilo que traz uma riqueza tão extraordinária”.

A julgar pelas falas do trono, a frota do ateniense já inclui as metas de inflação, o superávit primário, a Lei de Responsabilidade Fiscal, o câmbio flutuante, o FMI, a CPMF, a DRU (antigo Fundo Social de Emergência), a Bolsa-Escola Anabolizada (conhecida como Bolsa-Família), e o “grau de investimento”. A imagem do ateniense me ocorre diante da advertência de nosso presidente ao dos Estados Unidos sobre a crise financeira das hipotecas de quinta (tradução ateniense para “subprime mortgages”):

– Cuide do que é seu.

Bush deve ter pensado que o conselho era bom. Por isso, fez um pronunciamento à nação no qual anunciou que linhas de crédito seriam oferecidas a bancos para apoiar renegociações de mutuários com dificuldades para honrar suas prestações. Diante do anúncio, o ateniense aqui do Sul teria exclamado:

– Este navio é meu!

Na Europa, linhas semelhantes de apoio a bancos foram implementadas pelo Banco Central Europeu. No Reino Unido, o Banco da Inglaterra socorreu o banco especializado em hipotecas Northern Rock (a Rocha Nortista, literalmente). Só faltava que a Rocha fosse Nordestina para que o ateniense gritasse com ênfase:

– Este também é meu!

Lula aderiu ao pragmatismo econômico como um estrangeiro naturalizado, de sotaque carregado
Sem saber disso, o editorialista do Financial Times criticou o Banco da Inglaterra. Outros tantos criticaram a queda nos juros nos EUA. Se não há cadáveres nas crises, a imprudência permanece impune e incentivada. Ajudar os bancos em momentos de crise é sempre controverso. Para salvar as vítimas inocentes de um naufrágio financeiro, é preciso alocar os prejuízos àqueles que provocaram a confusão. Diante desses debates, um assessor palaciano observa ao presidente:

– Este seu navio mais recente é de grande serventia, pois protege os demais. Nada pior para sua frota que uma crise bancária. Mas o navio se chama Proer e está entre outras embarcações que procuramos afundar no passado e depois mudamos de idéia. O patrão tem certeza que devemos absorver mais este navio entre os nossos?

E o ateniense, grave, mas com ar trivial:

– Tem razão, companheiro, nossa frota já nos atende muito bem. Melhor que os veículos mais polêmicos fiquem com outros. Faça uma estátua e ponha naquele porão onde escondemos as que o ministro Palocci fez para seu antecessor. E não conte para ninguém, é claro.

(Época num. 0488 – 24/9/2007)

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