Segunda-feira, 5 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

Os pessimistas estavam certos

Faz três anos já, mas na minha memória parecia ontem: a “presidenta” cortava 18% da tarifa de luz para as residências, e até 32% para as indústrias. Algumas vozes aqui e ali ainda avisaram que não era bem assim que as coisas funcionavam, e que o custo daqueles cortes seria cobrado mais adiante; mas essas vozes dissonantes foram descartadas do coro geral de aplausos como aves de mau agouro, criaturas pessimistas e de má-fé que insistiam em não acreditar na competência do governo.

— O Brasil vai ter energia cada vez melhor e mais barata — discursou a “presidenta”. — Isso significa que o Brasil tem e terá energia mais que suficiente para o presente e o futuro, sem nenhum risco de racionamento ou de qualquer tipo de estrangulamento no curto, no médio ou no longo prazo.

E concluiu:

— Por termos vencido o pessimismo e os pessimistas, estamos vivendo um dos melhores momentos da nossa história.

Os “melhores momentos” duraram pouco, apenas o tempo necessário para uma reeleição. Ao longo do ano passado, o custo da energia elétrica teve reajustes em cima de reajustes, e a “presidenta” voltou a se manifestar sobre o assunto, já num tom bastante diferente do ufanismo de 2013:

— É verdade, sem sombra de dúvida, que as contas de luz aumentaram e, por isso, nós lastimamos. Mas elas aumentaram justamente porque, diante da falta de energia para sustentar a existência de luz, nós tivemos de usar as termelétricas e por isso pagar bem mais do que pagamos se houvesse apenas energia hidrelétrica no nosso sistema.

Não entendi bem o que ela quis dizer com isso: então não tínhamos “energia mais que suficiente para o presente e futuro”? Ou energia de campanha é outra categoria de energia? O fato é que, na terça-feira, recebi a minha primeira conta de luz do ano de 2016. Fiquei, como a nossa personagem gosta de dizer, estarrecida. E corri para a internet para escrever um desabafo:

“Em janeiro do ano passado, o consumo de energia elétrica aqui em casa — onde moramos apenas eu, os gatos e a Cláudia durante o dia, cinco dias por semana — foi de 590 kWh, e a conta deu R$ 158,86. Neste janeiro que ainda não acabou o consumo permaneceu praticamente o mesmo, com 600 kWh, mas a conta, que acaba de chegar, está em R$ 616,35. Segundo a Dilma e os seus miquinhos amestrados, porém, a inflação está dentro da meta — aquela coisa que a gente não coloca, deixa aberta, mas quando atinge dobra.”

Em poucas horas, mais de quinhentas pessoas — entre as mais de seis mil que curtiram o texto — deixaram comentários, revoltadas com contas ainda mais altas do que a minha. O caso mais esquisito foi o da amiga que está com o apartamento fechado, não consumiu um único kWh e, ainda assim, teve que pagar R$ 84. Outra, aposentada, revelou a estratégia que vem adotando para fugir do calor:

“No meu apartamento bate sol à tarde e, apesar de ter varandas e ser bem arejado, no verão o calor fica insuportável. Como tenho vale idoso, pego o ônibus depois do almoço, boto o notebook numa sacola e vou para o shopping, onde fico confortável em um sofá ou na Fnac. Tudo para aproveitar o ar grátis, pois, apesar de usar o ar apenas à noite, e em dois quartos, a minha conta, que antes não passava de R$ 240, veio beirando os R$ 500.”

Uma terceira contou que estava chegando da Light, aonde tinha ido para contestar o valor astronômico da sua conta, e que a agência estava lotada de pessoas igualmente confusas e desesperadas, num cenário de fim de mundo.

Não cheguei a ir até lá, mas tentei telefonar. O atendimento automático da Light pede o número do CPF ou o registro da conta, mas é incapaz de reconhecer qualquer um deles. Depois de muito tempo de espera, consegui falar com uma atendente. Ou, por outra, consegui ouvir uma atendente do outro lado da linha, fazendo de conta que não estava ouvindo o que eu dizia. A que me atendeu quando liguei de novo nem se deu ao trabalho de fingir nada e, antes mesmo que eu pudesse dizer alô, bateu o telefone.

Em um ano — apenas um ano — a minha conta de luz teve um aumento de 290%. Não sou boa de matemática: cheguei a este número depois de muito quebrar a cabeça, e estou aberta a outros cálculos e interpretações. O que não muda, porém, é o que está por trás deste percentual: a política energética populista e desastrada do governo mais arrogante, incompetente e despreparado que já tivemos.

No meio dos comentários, veio essa pérola:

“é só economizar simples assim…”

A gente tem que amar muito a internet. Na vida real, do lado de cá do computador, debaixo das minhas lâmpadas de led supereconômicas e dos ventiladores de teto que têm trabalhando direto no lugar do ar refrigerado, eu não responderia pelos meus atos se alguém me fizesse uma sugestão dessas. No Facebook apenas bloqueei a criatura e fui lá dentro fazer um café. No coador, é claro, para não gastar ainda mais luz.

Só quero ver o que vai ser de mim quando chegar a conta do gás.

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